sábado, 23 de fevereiro de 2008

Kate Daniels

Oração pelo meus filhos



Não lamento nada.
As minhas crueldades, as minhas traições
aos que em tempos julguei
ter amado. Todos os anos
não vividos, os poemas
não escritos, as noites desperdiçadas
a chorar e a beber.

Não, não lamento nada
porque aquilo que vivi
trouxe-me aqui, a este quarto
com as suas maravilhosas riquezas,
a sua simples abundância -
estas três cabeças brilhando
sob o candeeiro japonês, trabalhando
com lápis e papel.
Estes três que me amam
exactamente como eu sou, precisamente
até ao âmago do meu ser incompleto.
Que se levantam ansiosamente quando chego,
e caem no choro quando saio.
Cujos olhos são os meus olhos.
O cabelo, o meu cabelo.
Cujos corpos eu cubro
com beijos e mantas.
Cuja primeira refeição foi o meu corpo.
Cuja força, Deus queira, não viverei
para servir, ou partilhar.



(versão minha, dedicada a C., F. e P.; original reproduzido por Edward Hirsch, in Poet's Choice, Harcourt, Orlando, 2007, pp. 225-226)

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