quinta-feira, 17 de abril de 2008

Anna Swir

Lavo a camisa



Pela última vez lavo a camisa
de meu pai agora morto.
A camisa cheira a suor. Lembro-me
deste suor desde a minha infância,
durante tantos anos
lavei as suas camisas e a sua roupa interior,
sequei-as
num fogão de ferro no ateliê,
ele preferia vesti-las sem serem engomadas.

De entre todos os corpos do mundo,
animal, humano,
só um exsudava este suor.
Aspiro-o
pela última vez. Ao lavar esta camisa
destruo-o
para sempre.
Agora sobrevivem-lhe apenas os quadros
que cheiram a óleos.



(versão minha a partir da tradução do polaco para inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, in A book of luminous things, organizado por e com uma introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, p. 204. Anna Swir (1909-1984), poetisa polaca que se radicou nos Estados Unidos, era a única filha de um pintor "abismalmente pobre" (segundo Milosz) que viveu e trabalhou em Varsóvia.)

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