quarta-feira, 2 de abril de 2008

Stanley Kunitz

O retrato



A minha mãe nunca perdoou o meu pai
por se ter suicidado,
especialmente num momento tão inoportuno
e num parque público,
naquela primavera
em que me preparava para nascer.
Ela fechou o seu nome
no seu armário mais fundo
e não o quis deixar sair,
embora eu pudesse ouvi-lo a bater.
Quando desci do sótão
com o retrato a pastel na minha mão
de um estranho de lábios grandes
com um intrépido bigode
e equilibrados olhos castanhos escuros,
ela rasgou-o em pedaços
sem dizer uma palavra
e esbofeteou-me com força.
Aos sessenta e quatro anos
ainda consigo sentir a minha bochecha
a arder.



(in Edward Hirsch, Poet's choice, Harcourt, Orlando, 2007, p. 232).

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