quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Leona Gom

Sobrevivência



Nunca houve qualquer espécie de delicadeza.
Nada dessas tretas românticas
sobre crescermos numa quinta.
Tudo o que recordo
resume-se a dor e morte.
Quando os porcos eram castrados,
os seus guinchos toda a tarde
e o meu pai a entrar
ensopado pelo sangue da culpa.
Quando serravam os cornos dos bezerros,
os seus berros desesperados
e a minha mãe só dizia,
"isto não lhes dói nada".
Quando vi os gatos recém-nascidos esmagados
contra as paredes do celeiro,
e os cães mortos a tiro
por serem demasiado velhos
para guardarem o gado,
e as galinhas
com as cabeças cortadas
a sacudirem-se no solo ensanguentado,
e os cavalos vendidos
quando o meu pai comprou um tractor,
e eu pude ir de autocarro para a escola.
Aprendi muito sobre a necessidade,
- ou são funcionais, as coisas, ou morrem;
e não fiquei assim tão mal preparada
como cheguei a pensar no início
para viver nas cidades.




(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, organização e introdução de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press ltd., 2006, 2ª impressão, Saskatoon, pp. 72-73).

4 comentários:

Jota disse...

Muito forte. Muito bom.

Lp disse...

Um poema que faz aquilo que diz: a poesia ou "funciona", ou de nada nos serve. Cada palavra e cada verso são, neste poema extraordinário, absolutamente vitais. Trata-se no fundo, como nos diz o título, de uma questão de "sobrevivência". Como calculas, foi um prazer imenso passá-lo para português.

paliavana4 disse...

Uma poesia de excelência é a da LEONA GOM. Aqui, nesta Casa onde a Poesia é tratada como se deve tratar o pão, encontrei trigo bastante para abastecer a minha própria biblioteca, melhor, padaria.

Abraço.
Darlan M Cunha (Brasil)

Sophia Palma Jamis disse...

"Aprendi muito sobre a necessidade,
- ou são funcionais, as coisas, ou morrem;
e não fiquei assim tão mal preparada
como cheguei a pensar no início
para viver nas cidades."


Gosto muito desta 'passagem' do poema.

Alguém se despiu a escrevê-lo, alguém sentiu necessidade -e, nós leitores, ficamos presos a ele, rendidos.

Saudações.