segunda-feira, 31 de março de 2008

Lisel Mueller

Em Novembro



No interior da casa o vento uiva
e as árvores rangem de forma horrível.
Esta é uma velha história
com o seu velho começo,
enquanto me deito para adormecer.
Mas, quando acordo, a luz do sol
tomou conta de todo o quarto.
Tu já preparaste o café
e o rádio traz-nos música
vinda de uma época confiante. No jornal
as más notícias acontecem em lugares longínquos.
Fosse o que fosse que estivesse para acontecer
na minha história não aconteceu.
Mas sei que há regras que não podem ser quebradas.
Talvez um nome tenha mudado.
Um pequeno erro. Talvez
uma mulher que eu não conheço
enfrente agora o dia com o coração pesado
que, segundo todas as leis, deveria ser o meu.



(versão minha)

sexta-feira, 28 de março de 2008

José Emílio Pacheco

Indesejável



Não me deixa passar o guarda.
Ultrapassei o limite de idade.
Provenho de um país que já não existe.
Os meus papéis não estão em ordem.
Falta-me um carimbo.
Preciso de outra assinatura.
Não falo a língua.
Não tenho conta no banco.
Reprovei no exame de admissão.
Extinguiram o meu posto na fábrica imensa.
Desempregaram-me hoje e para sempre.
Não tenho nenhuma cunha.
Levo aqui deste mundo vasto tempo.
E os nossos amos dizem que já é hora
de me calar e de me fundir com o lixo.



(versão minha)

quarta-feira, 26 de março de 2008

Bill Knott

Poema



Queridos rapazes e raparigas,
não se esqueçam por favor
de sublinhar as minhas palavras
depois de as apagarem.



****



Na encruzilhada



O vento traz uma folha de papel até aos meus pés.

Apanho-a.

Não é uma petição para a minha morte.



****



Errado


Quero ser mal interpretado;
isto é,
interpretado a partir da tua perspectiva.



****



O que eu disse



O humor foi banido do céu das hienas.



****



Poema putativo da época samurai



ele escreveu um haiku
antes da sua lâmina cortar a minha cabeça
por que não um tanka
um tanka permitir-me-ia viver
por mais catorze sílabas.



(versões minhas)

Andrew Hudgins

No poço


O meu pai cingiu a corda,
um nó em torno da minha cintura,
e baixou-me para o interior
das trevas. Pude provar o sabor

do meu medo. Primeiro do escuro,
depois da terra, depois da podridão.
Oscilei e bati com a cabeça
e nesse instante cheguei

a outro medo: o do sangue,
que me fez cerrar ferreamente a boca.
À força de mãos, o meu pai
fez-me passar por tudo isto:

depois a água. Depois o pêlo encharcado,
que abracei contra o peito.
Gritei. E o meu pai puxou a corda
molhada. Desequilibrei-me, apertei

o cão desaparecido do meu vizinho
contra mim. Segurei a sua morte
e ascendi até ao meu pai.
Depois luz. Depois mãos. Depois a respiração.



(versão minha; original aqui).

segunda-feira, 24 de março de 2008

Eduardo Chirinos

Poema com cães


Conheci-o em Istambul.
Da sua boca pendia um cigarro turco
tinha os olhos pequenos
e uma vaga expressão de príncipe arruinado.
Nunca mais voltei a vê-lo, mas comprei o seu retrato
num leilão nos arredores de Londres.
Os meus filhos inventam subterfúgios para não o olharem,
as visitas desculpam-se, inventam mil histórias,
preferem não vir.
A minha mulher acaricia o lombo dos cães.
Não os teme. Diz que são amigos do homem.


(versão minha)

domingo, 23 de março de 2008

Javier Salvago

Retrato


Fala pouco, e a muito poucos
se atreve a chamar amigos,
passa ao largo se há confusão,
não visita os seus vizinhos,

atravessa a rua fumando,
sempre dentro de si mesmo,
vendo o mundo de fora
como quem lê um livro

preso - sem saída -
no seu próprio labirinto,
no entanto nem surdo nem cego
nem indiferente nem frio:

um solitário que vive
com uma mulher e um miúdo.



(versão minha)

sábado, 22 de março de 2008

Javier Salvago

Convém não esquecer



Por este atalho,
a que chamam vida, todos
vamos às apalpadelas

tal como um cego.
Em cinza terminam
todos os fogos.



****



Haiku



Como as nuvens de agosto, tudo passa.
A vida prova-nos
que se pode viver sem quase tudo.



(versões minhas)

sexta-feira, 21 de março de 2008

Javier Salvago

A juventude



Durou o que duram,
por norma, as ilusões:
até que descobres
que já acordaste.

Hoje é só história
para constituir memória.

Outros são os seus donos
e outro é aquele que olha
e procura o que de novo
oferece a vida.

Quem veio por tudo
não se satisfaz com tão pouco.


(versão minha)

quinta-feira, 20 de março de 2008

Javier Salvago

Quinta-feira Santa



A mesma lua, o mesmo
perfume de laranjeira
perfumando as ruas,
onde a vida estala

na multidão de corpos
que se atraem e procuram.
Calor de primavera
na pele e no ar.

Jovens incansáveis,
como nós então,
percorrem a cidade
bêbedos de desejo

- jovens com invernos
de abstinência, que sentem,
como Aquele, que também
o seu reino não é deste mundo -.

Os tambores recordam
que se avança para o patíbulo.
Diante de virgens chorosas,
descaradamente, beijam-se

deuses que morrerão
- como o deus que ontem fomos -,
sem remédio nem culpa,
na cruz dos anos.



(in Los mejores años, 1991; versão minha)

quarta-feira, 19 de março de 2008

Adam Zagajewski

Não permitas que o momento de lucidez se dissolva



Não permitas que o momento de lucidez se dissolva
Deixa que o pensamento radiante dure em sossego
embora a página esteja quase concluída e a chama vacile
Ainda não ascendemos ao nível que nos é devido
A sabedoria cresce lentamente como um dente do siso
A estatura de um homem continua a ser talhada
sobre uma porta branca

Vinda da distância, a voz feliz de uma trompete
e de uma canção surge inesperadamente como um gato
O que acontece não cai no vazio
O fogueiro continua a alimentar a fornalha com carvão
Não permitas que o momento de lucidez se dissolva
Tens de gravar a verdade
numa substância seca e dura



(versão minha a partir da tradução para inglês de Renata Gorczynski)

terça-feira, 18 de março de 2008

Juan Gelman

O jogo em que andamos



Se me dessem a escolher, escolheria
esta saúde de saber que estamos doentes,
esta felicidade de andarmos tão infelizes.
Se me dessem a escolher, escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que passo por impuro.
Se me dessem a escolher, escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que come pães desesperados.
Aqui acontece, senhores,
que jogo com a morte.



(versão minha)

sábado, 15 de março de 2008

Richard Aronowitz

Anatomia de um mentiroso



Deslizar debaixo deste céu infinito,
cavalgar a rede das minhas artérias,
percorrer os caminhos do meu pecado.
Poderia contar-te histórias sobre

a atracção, tubos capilares e por aí fora,
tecer grandes narrativas a partir dos ramos dos meus brônquios,
guiar-te pelos quatro cantos dos meus olhos.
Poderia conceber mil papeis diferentes,

enganar-te com a contagem das minhas borbulhas
só para confirmar que de facto ainda estou vivo.
Talvez componha algo simples para ti,
tão fácil como admitir uma mentira.

Agora, retrocedendo lentamente a partir de cem,
abre-me como se fosse uma rosa. Rejeita
o meu coração e deixa os meus pulmões inchados,
eles enganam-te a toda a hora. Não aceites

que a minha língua ou a garganta te desviem.
Terás que me cortar em carne viva,
até às pontas dos dedos por um verso que seja verdadeiro.
O resto é apenas entretenimento, um logro feito carne.



(versão minha; in Anvil new poets, Anvil, London, 2001, p. 18)

terça-feira, 11 de março de 2008

Tony Harrison

Longa distância II


Apesar da minha mãe já ter morrido há dois anos
o meu pai continua a colocar as suas pantufas junto do aquecedor,
põe botijas de água quente no seu lado vazio da cama
e continua a ir renovar-lhe o passe social.

Não podíamos aparecer de repente. Tínhamos de telefonar.
Durante uma hora mantinha-nos à distância para ter tempo
de esconder as coisas dela e parecer um homem só
como se o seu amor puro e silencioso fosse um crime.

Ele não podia expor-se à minha má influência de descrente
embora estivesse certo de que em breve iria ouvir a chave dela
a ranger na fechadura enferrujada e a encerrar o sofrimento dele.
Sabia que ela tinha saído precipitadamente para arranjar chá.

Eu creio que a vida termina com a morte, e é tudo.
Não fomos juntos às compras; tanto faz,
na minha agenda preta de cabedal aparece o teu nome
e o número que já ninguém atende e para o qual continuo a ligar.



(versão minha)

segunda-feira, 10 de março de 2008

Ferran Fernández

Mandamento


Ama-me sobre todas as coisas

por exemplo

sobre a carpete
sobre a mesa
sobre a areia da praia



(versão minha)

quinta-feira, 6 de março de 2008

Peter Cherches

Levanta o teu braço direito


Levanta o teu braço direito, disse ela.
Levantei o meu braço direito.
Levanta o teu braço esquerdo, disse ela.
Levantei o meu braço esquerdo. Os meus dois braços estavam levantados.
Baixa o teu braço direito, disse ela.
Baixei-o.
Baixa o teu braço esquerdo, disse ela.
Fi-lo.
Levanta o teu braço direito, disse ela.
Obedeci.
Baixa o teu braço direito.
Assim fiz.
Levanta o teu braço esquerdo.
Levantei-o.
Baixa o teu braço esquerdo.
Assim fiz.
Silêncio. Ali fiquei, os dois braços em baixo, esperando pela sua próxima ordem. Passado um bocado fiquei impaciente e disse, e agora.
Agora é a tua vez de dar as ordens, disse ela.
Está bem, disse eu. Diz-me para levantar o meu braço direito.
(versão minha)

segunda-feira, 3 de março de 2008

Billy Collins

À pesca no Susquehanna em Julho



Eu nunca andei à pesca no Susquehanna
ou em qualquer rio do mesmo género
para ser completamente honesto.

Nem em Julho, nem noutro mês
tive o prazer - se for um prazer -
de pescar no Susquehanna.

Sou mais do tipo de ser encontrado
numa sala sossegada como esta -
uma pintura de uma mulher na parede,

uma cesta de tangerinas sobre a mesa -
tentando compor a sensação
de pescar no Susquehanna.

Não restam muitas dúvidas
de que outros tenham pescado
no Susquehanna,

remando contra a corrente num bote de madeira,
mergulhando os remos na água
e levantando-os depois para gotejarem na luz.

No entanto, o mais próximo que estive
de pescar no Susquehanna
foi uma tarde num museu em Filadélfia

enquanto segurava um pequeno ovo do tempo
em frente a uma pintura
na qual esse rio se enrolava em volta de uma curva

debaixo de um céu azul e franzido com nuvens,
árvores densas ao longo das margens,
e um homem com um lenço vermelho

sentado num pequeno bote verde
de fundo raso
segurando a linha fina de uma cana.

Isto é algo que eu provavelmente
nunca farei, lembro-me de ter dito
a mim próprio e à pessoa que ali estava.

Depois pisquei os olhos e avancei
para outras paisagens americanas
de pilhas de feno, águas claras entre rochas,

até uma de uma lebre castanha
que parecia tão tensa e alerta
que eu imaginei que iria saltar da moldura.



(versão minha)