quinta-feira, 26 de junho de 2008

Bob King

Geologia



Eu conheço a origem das rochas, sedimentando-se
fora da água, incubando cristais
a partir do fogo, posto sob pressão
pelos diferentes padrões eu coleccionei
os mais belos, piquenique após piquenique.

E conheço o amor, uma pequena,
ignea luxúria, as lentas afeições
da sedimentação, a pressão
sob a terra, longe do olhar, para se fazer
matéria, alguma coisa sólida
que podes agarrar, uma montanha inteira,
por exemplo, ou uma colecção perdida
de seixos que esqueceste que guardavas.



(versão minha; original aqui).

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Andrew Motion

No sótão



Ainda que soubéssemos agora
que a tua roupa não seria mais
necessária guardámo-la,
lá em cima, numa arca fechada.

Às vezes lá estou eu, ajoelhado,
segurando-a, tentando reviver
o tempo em que a usaste, recordar
o tamanho real de braços e pulsos.

As minhas mãos descem por dentro
de mangas invisíveis, vazias,
hesitam, depois exibem
amostras da memória:

um feriado verde, um baptismo vermelho,
todas as tuas vidas incompletas
definhando através dos verões sombrios,
entrando na minha cabeça como poeira.



(versão minha; original reproduzido em The Penguin Book of Contemporary British Poetry, selecção de Blake Morrison e Andrew Motion, Penguin Books, Middlesex, 1986, 5ª edição, p. 132.)

domingo, 22 de junho de 2008

Anna Swir

Não sei ladrar



Estou a lavar o chão da cozinha
como se tivesse quatro patas,
na posição de cão.
Alcanço
por um momento
o bom humor
de cão.

É pena, só não consigo
ladrar.



(versão minha; de Talking to my body, tradução de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, Copper Canyon Press, Washington, 1996, p. 117).

Miroslav Holub

A porta



Vai e abre a porta.
Talvez lá fora exista
uma árvore, ou um bosque,
um jardim,
ou uma cidade mágica.

Vai e abre a porta.
Talvez haja um cão a esquadrinhar.
Talvez vejas um rosto,
ou um olhar,
ou a imagem
de uma imagem.

Vai e abre a porta.
Se houver nevoeiro
ele desaparecerá.

Vai e abre a porta.
Mesmo que só haja
o tiquetaque das trevas,
mesmo que só haja
o vento vazio,
mesmo que
não exista
nada,
vai e abre a porta.

Pelo menos
haverá
uma corrente de ar.



(versão minha, a partir da tradução do checo para o inglês de Ian Milner, reproduzida em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 8ª edição, p. 69).

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Helen Farish

O portão branco



Sinto-me tão contente não pude saber
que a última vez seria a última vez
que cruzaríamos o portão branco
do campo e que eu poderia regressar a casa
cheia de felicidade. Senhor, defende-me

das últimas vezes e se não puderes
defender-me das últimas vezes defende-me
da consciência delas. Leva de súbito
cada um de nós, fecha de súbito
o portão. Não me reveles coisa nenhuma.



(versão minha; de Intimates, Cape Poetry, London, 2005, p. 34).

terça-feira, 17 de junho de 2008

Helen Farish

Empire State Building



Fui mesmo até ao topo
para nos atirar
na forma de dois cêntimos,
as moedas caindo
em tristes linhas paralelas,
o espaço entre elas
vazio como o não-espaço
entre os arranha-céus erguidos em separado.
Mas cometi o erro de esperar
até que a cidade se iluminasse
em resposta ao crepúsculo
e com o crepúsculo
veio o vento e com o vento
neve como a neve de um filme.
Tão mágica que era como se
estivesses comigo
a tomar posição sobre os acontecimentos,
a tornar direitas linhas curvas,
a deslizar a tua mão fria
debaixo do meu casaco, procurando a pele
lisa das minhas costas, depois reclamando o direito
ao meu seio, incendiando-me.
As pessoas abandonariam o Norte o Sul e o Leste
para virem assistir
ao que se estava a passar na parte Oeste,
e à medida que o 80º piso se tornasse no 79º
e este no 78º, tu dirias Sabes,
sempre merecemos muito mais do que isso.



(versão minha; de Intimates, Cape Poetry, London, p. 18.)

Helen Farish

Três poemas traduzidos por João Luís Barreto Guimarães.

domingo, 15 de junho de 2008

Helen Farish

Gémeas recém-nascidas


Em incubadoras separadas uma das gémeas estava a morrer.
Contra as ordens do médico, uma enfermeira juntou-as.



A gémea mais forte, a que não
tinha qualquer dificuldade, atirou
o seu braço recém-nascido para cima
da que queria partir,
e estabilizou o seu ritmo cardíaco, regularizou
tudo no corpo da que já
tivera que bastasse.

A mais forte, vai julgar
que é Deus, pois pode trazer de volta
a vida para onde já partira.
Vai ser mais duro para ela
do que para a que já conheceu
a separação, a solidão, lugares
que acabarão por nos fazer desejar.



(versão minha; de Intimates, Cape Poetry, London, 2005, p. 11.)

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Wendell Berry

A paz das coisas bravias



Quando o desespero pelo mundo cresce em mim
e acordo na noite ao mínimo som
com medo do que a minha vida
e a dos meus filhos possam vir a ser
avanço e deito-me junto da água onde
o pato dos bosques aconchega a sua beleza
e a garça real se alimenta.
Entro na paz das coisas bravias
que não impõem tributos às suas existências preparando-se
para a dor. Fico na presença da água serena.
E sinto, acima de mim, as estrelas cegas de dia
aguardando com a sua luz. Por um instante
participo da graça do mundo, e sou livre.



(versão minha; original aqui)

domingo, 8 de junho de 2008

James Tate

Ensinando o macaco a escrever



Não tiveram grandes problemas
em ensinar o macaco a escrever poemas:
primeiro amarraram-no a uma cadeira
depois ataram o lápis à sua mão
(o papel já fora previamente fixado).
Então o Dr. Bluespire inclinou-se sobre ele
e murmurou-lhe ao ouvido:
"Parece-me que está confortavelmente sentado.
Não quer experimentar escrever qualquer coisa?".



(versão minha; original reproduzido em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1996, p. 251).

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Po Chu-I (772 - 846)

Os filósofos: Lao-Tzu



"Aqueles que falam nada sabem:
Aqueles que sabem permanecem em silêncio."
Estas palavras, disseram-me,
Foram pronunciadas por Lao-Tzu;
Se acreditarmos que Lao-Tzu
Foi ele próprio um daqueles que sabiam,
Como explicar que tivesse escrito um livro
De cinco mil palavras?



(versão minha, a partir da tradução do chinês para o inglês de Arthur Walley, reproduzida em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1996, p. 244)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

domingo, 1 de junho de 2008

Mousheg Ishkhan

A língua Arménia é a casa dos arménios



A língua Arménia é a casa
e o refúgio onde o errante pode encontrar
telhado e paredes e sustento.
Ele pode entrar para recolher amor e orgulho
fechando a hiena e a tempestade lá fora.
Durante séculos os seus arquitectos trabalharam arduamente
para levantar os seus tectos.
Quantos camponeses, com a sua labuta,
dia e noite mantiveram
os seus armários cheios, as lâmpadas acesas, os fornos quentes.
Sempre rejuvenescida, sempre antiga, tem durado
século após século no caminho
onde cada Arménio pode encontrá-la quando está perdido
no deserto do seu futuro, ou do seu passado.



(versão minha, da tradução do arménio para o inglês de Diana de Hovanessian, reproduzida em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1996, p. 303.)