terça-feira, 30 de setembro de 2008

Thomas Lux

Para ajudar o macaco a atravessar o rio,



o que ele tem
de fazer, nadando, para apanhar frutos e nozes,
para o ajudar
sento-me com a minha carabina numa plataforma
bem alta numa árvore, do mesmo lado do rio
em que se encontra o macaco esfomeado. Como é que isto o
ajuda? Quando ele se lança à água para chegar à outra margem
olho primeiro rio acima: os predadores movem-se mais depressa a favor
do que contra a corrente.
Se um crocodilo se prepara rio acima para comer o macaco
e uma anaconda rio abaixo arde
com a mesma ambição, elaboro
os cálculos, a álgebra necessária, os ângulos, as relações de velocidade
de macaco-crocodilo-e cobra, e se, se
se afigura provável que a anaconda ou o crocodilo
irão apanhar o macaco
antes de ele atingir a margem mais afastada do rio,
então aponto a minha carabina e disparo
uma, duas, três, talvez até quatro vezes para o rio,
mesmo a rasar as costas do macaco
para o apressar um pouco.
Deveria disparar sobre a cobra, o crocodilo?
Eles apenas desempenham os seus papéis na história,
mas o macaco, o macaco
tem duas mãozinhas que parecem as de uma criança,
e os mais espertos, numa jaula, podem ser ensinados a sorrir.



(versão minha; original e leitura do poeta aqui).

domingo, 28 de setembro de 2008

Carol Ann Duffy

Palavras, extensa noite



Algures do outro lado desta extensa noite
e da distância entre nós, estou a pensar em ti.
O meu espaço despede-se lentamente do espaço.

Isto é agradável. Ou devo riscar isto e dizer
que é triste? Numa certa linha do tempo canto
uma impossível canção de desejo que não podes escutar.

Lá lala lá. Entendes? Fecho os meus olhos e imagino
as montanhas negras que teria que atravessar
para te alcançar. Porque te amo e isto

é como é ou como é em palavras.



(versão minha; original reproduzido em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 141.)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Primo Levi

25 Fevereiro 1944



Quem me dera acreditar em alguma coisa,
Alguma coisa para além da morte que te desfez.
Quem me dera poder dizer a força
Com que desejávamos então,
Já submersos,
Poder voltar a caminhar por uma vez
Livres sob o sol.



(versão minha; original e tradução para inglês de Eleonora Chiavetta reproduzidos em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 243.)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Anna Swir

O mesmo interior



A caminho de tua casa para um festim de amor
vi na esquina de uma rua
uma velha pedinte.

Peguei na sua mão,
beijei a sua face delicada,
conversámos, ela tinha
o mesmo interior que eu,
do mesmo género,
senti-o instantaneamente
como um cão conhece pelo cheiro
outro cão.

Dei-lhe dinheiro,
não conseguia separar-me dela.
Afinal, todos precisamos
dos que nos são próximos.

E depois eu já não sabia
porque caminhava para tua casa.



****



Sandálias de praia



Nadei para longe de mim mesma.
Não me chames.
Nada também para longe de ti mesmo.

Nadaremos para longe, abandonando os nossos corpos
na margem
como um par de sandálias de praia.



****



Não é fácil



Ponho algemas
e grilhões de ferro
e agora
corro.



(versões minhas, a partir das traduções para inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzidas em Talking to my body, Copper Canyon Press, Washington, 1996, pp. 73, 131 e 125.)

sábado, 20 de setembro de 2008

Stuart Kestenbaum

Oração pelos mortos



A neve suave começou tarde a noite passada e continuou
a noite toda enquanto eu dormia e podia ouvi-la entrar
ocasionalmente no meu sono, no qual sonhei que o meu irmão
estava de novo vivo e possuía a beleza da juventude, consciente
de que ele partiria de novo em breve e de que essa é a lição
da neve a cair e das sementes de morte que existem em tudo
o que nasce: estamos aqui por um momento
numa história que é mais longa do que nós e poucos de nós
recordam, o vento nasce em sítios
que desconhecemos, e cada momento contém ritmos
dentro de ritmos, e se descobres restos antigos
da tua própria escrita, ou uma velha fotografia,
podes não ter a certeza de que foste tu mesmo que tenhas sido tu,
não és tu agora, nem este momento que une o fogo
e as tuas mãos movem-se para cobrir o teu rosto num gesto
de dor e recordação.



(versão minha; o original, com o irmão do poeta e o 11 de Setembro de 2001 em fundo, pode ser lido aqui).

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Vagn Steen

$capitalista$



$uma$sociedade$
$capitalista$transforma$tudo$
$em$dinheiro$e$capitaliza$todos$
$os$serviços$tudo$é$expresso$
$monetariamente$e$exactamente$contabilizado$
$tudo$tem$um$aspecto$
$monetário$tudo$tem$
$um$sorriso$monetário$
$tudo$


(versão minha a partir da tradução para inglês feita pelo poeta, reproduzida em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 249.)

domingo, 14 de setembro de 2008

Cicely Herbert

Tudo muda

depois de Brecht, "Alles wandelt sich"



Tudo muda. Plantamos
árvores em nome dos que vão nascer
mas o que aconteceu aconteceu,
e os venenos vazados nos mares
não mais serão drenados.

O que aconteceu aconteceu.
Os venenos vazados nos mares
não mais serão drenados, mas
tudo muda. Plantamos
árvores em nome dos que vão nascer.



(versão minha; original reproduzido em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 89.)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Barton Sutter

Canção sóbria



Não mais a luz das estrelas no whisky,
Adeus ao brilho do sol na cerveja.
A bebedeira tornou-me vaidoso e brincalhão
Mas atormentou o homem ao espelho.
Boa noite para o luar no brandy,
Adieu ao ardor do vinho.
Penso que consigo finalmente
aguentar-me sem um copo ou uma sagres.
Bye-bye ao conforto do vodka,
Tchau ao mentol do gin.
Tento fazer o que devo,
Rejeitar este remédio venenoso.
Não sentirei a falta dos colapsos e dos vómitos,
dos acidentes e do arrependimento.
Se conseguir manter-me longe do álcool tinhoso
É capaz de haver ainda uma hipótese para mim.
Adeus a Deus numa garrafa,
Às mentiras do rum e do vermute.
Deixem-me matar a sede com a água
E a doce, transparente verdade.



(versão minha; original aqui)

domingo, 7 de setembro de 2008

Samih al-Qasim

Como me transformei num artigo



Eles mataram-me uma vez
Agora exibem o meu rosto vezes infinitas



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Fim de um debate com um carcereiro



Do postigo da minha estreita cela
posso avistar árvores sorrindo-me,
telhados repletos com a minha gente,
janelas chorando e rezando por mim.
Do postigo da minha estreita cela
posso avistar a tua imensa cela.




****



Eternidade




Folhas caem de quando em quando
No entanto o tronco do carvalho



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Bilhetes de viagem



No dia em que me matares
Encontrarás no meu bolso
Bilhetes de viagem
Para a paz,
Para os campos e a chuva,
Para a consciência do povo.
Não os desperdices.



(versões minhas a partir das traduções inglesas de Abdullah al-Udhari reproduzidas em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2005, pp. 71, 77, 79 e 59).

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Samih al-Qasim

Confissão ao meio-dia



Plantei uma árvore
Desprezei o fruto
Queimei o tronco como lenha
Fiz um alaúde
E toquei uma melodia

Quebrei o alaúde
Perdi o fruto
Perdi a melodia
Chorei sobre a árvore



(versão minha a partir da tradução inglesa de Abdullah al-Udhari reproduzida em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2005, p. 57).