terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Raymond Carver

O poema que não escrevi



Aqui está o poema que ia escrever
antes, mas não escrevi
porque te ouvi a despertar.
Estava a pensar outra vez
naquela primeira manhã em Zurique.
Como acordámos antes do amanhecer.
Desorientados por um instante. Mas indo
até à varanda que dava
para o rio e para a parte velha da cidade.
E ali estávamos simplesmente, em silêncio.
Nus. Vendo como o céu clareava.
Tão comovidos e felizes. Como se
nos tivessem colocado ali
naquele preciso momento.



(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Jaime Priede, reproduzidos em Todos Nosotros, Bartleby Editores, Madrid, 4ª edição, 2007, p.106).

domingo, 28 de dezembro de 2008

Raymond Carver

Domingo à noite



Usa as coisas que te rodeiam.
Esta chuva branda
Do lado de fora da janela, por exemplo.
Este cigarro entre os meus dedos,
Estes pés no sofá.
O som débil do rock-and-roll,
O Ferrari vermelho na minha cabeça.
A mulher aos encontrões
Bêbeda pela cozinha...
Recolhe tudo isso,
Usa-o.



(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Jaime Priede, reproduzidos em Todos Nosotros, Bartleby Editores, Madrid, 4ª edição, 2007, p. 223).

sábado, 27 de dezembro de 2008

Doug Beardsley

O poema perfeito



O que quero
escrever
não está aqui
mas algures
além.

O que faço
é um poema,
uma pequena casa
para viver,
um refúgio de prazer.

O que vejo
é a forma
que procuro ler,
uma perfeita
cascata de palavras.

O que sonho
é o mesmo
poema que faço
mas estou sempre
acordado.



(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, organização e selcção de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd. Saskatoon, 2ª impressão, 2006, p 15).

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Robert Hilles

Este poema não te vai magoar



Contém apenas palavras gentis.
Não há esquadrões da morte
à espera clamando por ti entre
as sílabas. Os sons das
explosões e da morte são vagos
e pertencem às composições
de outros. Aqui podes viajar
em segurança. É calmo; repousa
entre o desepero e a perda.
As flores crescem cuidadosamente
neste poema. As suas fragrâncias demoram-se
por dentro do ritmo das
palavras. Muda cada página suavemente.
Entregam-se assim que a tua língua
imagina o seu sabor. Este poema
não conquista nada. Não ataca
nada. Foge das
ofensas, das discussões,
das vozes agressivas. Muda a página
suavemente. As ruas neste poema
estão repletas de música. Até os
mortos são leves; flutuam
livres do estranho malogro
da sepultura. Muda a página
suavemente. Quando terminares este
poema, adormece; pensa apenas nos deuses
e no que lhes gostarias
de pedir. Este poema não tem
queixas contra ti, liberta-o suavemente.
Outros foram torturados por
pensamentos idênticos. Este poema não se preocupa
com a cor da tua pele ou o tipo
de atrocidades pessoais que testemunhaste.
Liberta-o suavemente. Há uma imagem final.
Lê-o em voz alta.
Uma letra de cada vez.



(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, selecção e organização de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd. Saskatoon, 2ª impressão, 2006, pp. 102-103).

domingo, 21 de dezembro de 2008

Leona Gom

O modo como ele o disse



Tanto frio,
os cavalos embranquecidos por ele,
e a minha mulher, a morrer,
no trenó,
a quarenta milhas do hospital,
depois chegámos lá,
e eles não queriam tomar conta dela.
Não tem dinheiro, não há médico,
disseram eles.
E Rosenbloom, que estava lá,
tomem conta desta mulher, gritou ele,
eu dou-vos o raio do dinheiro!
Então ficou tudo bem,
eles tomaram conta dela.
Ele era judeu, Rosenbloom, disseram eles,
mas isto é o que eu recordo dele.




(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, selecção e organização de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd., Saskatoon, 2ª impressão, 2006, p. 75).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

John Ash

O enigma de Jan Keetmam


O seu correio chega,
correctamente endereçado,
mas ele não está aqui.

É holandês ou dinamarquês?
Não é certamente alemão.
Penso que tem cabelos finos e flexíveis.

Por vezes o carteiro desespera,
e deixa as suas cartas e
encomendas órfãs à minha porta

como se fossem oferendas para o deus
de tudo o que é estrangeiro e infiel.

Na verdade, temos ambos nomes estranhos,
e Jan não é muito diferente de John.
Desconfio que o carteiro pensa que

eu sou realmente esta outra pessoa,
e, se ele persistir, vou desistir
e confessar por fim a minha verdadeira identidade.

Mas não, devo insistir,
eu não sou, não sou Jan Keetman.



(versão minha; poema do livro The Parthian Stations, Carcanet, Manchester, 2007, p. 29).

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Raymond Carver

Último fragmento



E apesar de tudo conseguiste
o que querias desta vida?
Sim.
E o que querias?
Considerar-me amado, sentir-me
amado sobre a terra.



(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Jaime Priede, reproduzidos em Todos nosostros, Bartleby Editores, selecção, tradução e prólogo de Jaime Priede, 4ª edição, Madrid, 2007, p. 251).

domingo, 14 de dezembro de 2008

John Ash

Preocupação



Tal como a minha mãe e o meu pai antes de mim,
sou bom nisto. O truque é preocupares-te
quando tudo vai bem contigo:

tens saúde e estás apaixonado e o teu palacete
está rodeado por amplos jardins solenes,
e de súbito sabes que isto é demasiado bom para ser verdadeiro:

"Talvez, sem o meu conhecimento,
o meu corpo abrigue já uma doença fatal,
ou o meu amor me odeie secretamente, e agora mesmo
esteja a preparar a minha queda."

Nada é assim tão óbvio,
mas por amor de Deus usa a imaginação!
Pensa no que pode apanhar-te de surpresa
como uma bola de neve atirada às costas.

Se és um afortunado deverias estar preocupado.
Édipo, como podes recordar, teve um problema com isto.



(versão minha; poema do livro The Parthian Stations, Carcanet, Manchester, 2007, p. 28).

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

John Ash

Deixando Nova Iorque I



Não me mudei de uma
para outra cidade.
Mudei-me de uma para outra
versão da mesma cidade.

O que perdi ou ganhei? Amigos,
um apartamento com um tecto maravilhoso,

visões azuis do mar,
os gritos das gaivotas ao nascer do sol.
Todas as ruas são a mesma
se vives nela.



(versão minha; poema do livro The Parthian Stations, Carcanet, Manchester, 2007, p. 12).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Juan Gelman

O cão



O poema não pede de comer. Come
os pobres pratos que
gente sem vergonha ou pudor
lhe serve a meio da noite.
A palavra divina já não existe. Que pode
fazer o poema senão
contentar-se com o que lhe dão?
Depois uivará por aí
sem resposta, será
outro cão perdido
na cidade impiedosa.



(versão minha; poema do livro Valer la pena, Visor Libros, Madrid, 2008, 2ª edição, p. 132).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

jpb


(Uma "interpretação literal", palavras do fotógrafo, dos poemas "A chave do gás" e "Nota de rodapé de "A chave do gás"" de Juan Gelman, passados a português e publicados aqui e aqui).

domingo, 7 de dezembro de 2008

Juan Gelman

Nota de rodapé de "A chave do gás"



A mulher do poeta irritou-se
com o poema "A chave do gás".
Não vê por que razão a metáfora da palavra,
ou a ambiguidade da palavra,
ou as feridas que a palavra produz
podem impedir alguém
de saber onde está a chave do gás e
como ela fecha e abre. Tem razão.
O poeta labora num erro porque
a chave da palavra, digamos, nem fecha
nem abre, e pode até dizer-se que não existe,
e menos ainda a sua metapalavra,
a sua ambiguidade cortante ou vazio.
A realidade da cozinha tranquiliza,
há chaves que fecham, que abrem, funcionam
cumprindo a função de demonstrar
que há coisas que se fecham e abrem
e sonham desde ontem na minha cabeça
e que não consigo fechar.




(versão minha; poema do livro Valer la pena, Visor Libros, Madrid, 2008, 2ª edição, p. 131)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Juan Gelman

A chave do gás




A mulher do poeta está
condenada a ler ou a escutar os
versos do poeta que fumegam
recém-arrancados da alma. E mais:
a mulher do poeta
está condenada ao poeta, a esse
que nunca sabe onde
está a chave do gás e finge
que pergunta para o saber
quando só lhe interessa perguntar
o que não tem resposta.



(versão minha; poema do livro Valer la pena, Visor Libros, Madrid, 2008, 2ª edição, p. 130).

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Leona Gom

Sobrevivência



Nunca houve qualquer espécie de delicadeza.
Nada dessas tretas românticas
sobre crescermos numa quinta.
Tudo o que recordo
resume-se a dor e morte.
Quando os porcos eram castrados,
os seus guinchos toda a tarde
e o meu pai a entrar
ensopado pelo sangue da culpa.
Quando serravam os cornos dos bezerros,
os seus berros desesperados
e a minha mãe só dizia,
"isto não lhes dói nada".
Quando vi os gatos recém-nascidos esmagados
contra as paredes do celeiro,
e os cães mortos a tiro
por serem demasiado velhos
para guardarem o gado,
e as galinhas
com as cabeças cortadas
a sacudirem-se no solo ensanguentado,
e os cavalos vendidos
quando o meu pai comprou um tractor,
e eu pude ir de autocarro para a escola.
Aprendi muito sobre a necessidade,
- ou são funcionais, as coisas, ou morrem;
e não fiquei assim tão mal preparada
como cheguei a pensar no início
para viver nas cidades.




(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, organização e introdução de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press ltd., 2006, 2ª impressão, Saskatoon, pp. 72-73).

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

América 2008 (5)

(Chicago, Illinois, Nov. 2008: foto - jpb)