quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Bruce Hunter

Para uma definição de pornografia



Um. Homens e mulheres jovens com cursos de Literatura Inglesa, vivendo elegantemente em bairros miseráveis, escrevendo poesia - com uma linguagem sexualmente inclusiva - sobre violação, assassínio e violência doméstica, tudo o que acontece aos outros.

Dois. Em salões urbanos, igrejas, universidades, quem quer que seja empenhado num discurso politicamente correcto sobre a pornografia, a violência, ou a Nicarágua. Esta é a Verdadeira História, o poema que pode ser escrito.

Três. A minha mãe com uma faca. Isto é quando a definição se torna pessoal. Eu tenho dezassete anos. Ela caminha entre a minha irmã e o meu pai alcoólico. Nessa noite em que saí de casa. Um ano depois ela faz o mesmo. Algo sobre o qual Margaret Atwood não sabe nada.

Quatro. No tribunal, o juíz, dois advogados, todos homens. A minha mãe recebe um dólar por ano e assistência social. O meu pai compra uma casa nova.

Cinco. Os meus irmãos adolescentes na cadeia. Por pequenas ofensas, nenhum deles maldoso. Do outro lado da espessa janela de plexisglás, os rostos feridos. O elevador da esquadra da polícia parou entre os pisos. A lista telefónica aplicada contra o abdómen, contra as costelas. Hoje é sexta-feira. Segunda-feira de manhã não haverá danos visíveis diante do juíz.

Seis. A polícia visita a minha mãe à procura dos meus irmãos. São 4 da manhã. Isto acontece muitas vezes. As minhas irmãs são abordadas para identificação. Isto também acontece muitas vezes. Isto é o que se faz com os mais pobres neste país.

Esta noite algures nos vossos bairros vocês estão a falar de nós. Alguns de vós estão a escrever poemas, a tratar de doações, ou a fazer um filme. Para vocês isto está bem.

E a minha mãe agora vai às vossas igrejas. Ela perdoou-vos. Eu não.

(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, selecção e organização de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd., 2ª impressão, Saskatoon, 2006, pp. 114-115).

2 comentários:

Jota disse...

Muito bom. Mesmo. Ao teu jeito.

Lp disse...

Espero que a versão faça justiça ao original.