sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

John Brehm

Os poemas que não escrevi



Sou tão loucamente improdutivo, os poemas
que não escrevi iriam daqui
à costa da Califórnia
se os pusessem uns a seguir aos outros.

E se os empilhassem,
os poemas que não escrevi
iriam oscilar como uma silenciosa
Torre de Babel, não dizendo nada

e dizendo tudo num milhar
de línguas diferentes. Tão comoventes, tão
cheios e tão vazios de sofrimento,
tão encharcados na música de uma voz

muda diante da verdade,
os poemas que não escrevi
iriam quebrar os corações de todas
as mulheres que um dia me abandonaram,

iriam levá-las a olhar os seus maridos
com um fino desprezo e a odiarem-se
a si mesmas por voltarem as costas
à verdadeira fonte da beleza.

Os poemas que não escrevi
haveriam de compelir todos os outros poetas
a perguntar a Deus: "Por que me
deixas viver? Eu sou desprezível,

por favor acaba de vez comigo,
destrói a minha obra e limpa
a terra de todas as minhas horríveis
imperfeições". As árvores iriam

curvar as suas cabeças diante dos poemas
que não escrevi. "Levem-me",
diriam elas, "e transformem-me
nas vossas páginas para que eu

possa viver para sempre como o chão
a partir do qual as vossas palavras se erguem."
O próprio vento, acerca do qual
eu poderia ter escrito tão eloquentemente,

louvando a sua suavidade e as suas cruzadas
correntes de ar, as suas grandiosas, calmas
e furiosas interrogações,
as suas lentas, melodiosas e apaixonadas

cesuras, iria desviar-se do seu curso,
descer precipitadamente e depois atravessar
os poemas que eu não escrevi,
e a vida que eu não vivi, a vida

que eu nem sequer consegui imaginar
e que eles, de forma tão perfeita, descreveriam.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

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