quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Blaga Dimitrova

A linguagem das aves


A linguagem das aves é o canto.
E o canto não sabe mentir.
Revela a dor mais oculta,
os arrebatamentos mais obscuros do amor.
Ao longe o canto sublinha já
a identidade exacta da ave:
rouxinol, papa-figos, merlo, tentilhão.
Quanto pode ser dito
à velocidade de trezentos sons por segundo?
Não há uma linguagem mais intensa,
mais livre, mais natural,
mais íntima, até à desolação,
que a gorjeada linguagem das aves.
Escutam-se umas às outras sem nunca se interromperem.
Não conhecem o mal-entendido,
e se o houver será migratório.
Não praticam a ambiguidade, a insinuação,
nem entendem erroneamente a súplica,
não silenciam a confissão.
Tudo emana claridade.
É por isso que o teu verso busca
aliterações, acordes de cordas, quiasmos,
pausas, ecos internos, refrães, síncopes?
Mas como se alcança a música
da reciprocidade consonante das aves?


(1987)


(versão minha a partir da tradução do búlgaro para o espanhol de Zhivka Baltadzieva, reproduzida em Espacios, edição bilingue, tradução e prólogo de Z. Baltadzieva, La Poesía, senõr hidalgo, Barcelona, 2006, p. 231).
(Este blogue comemora hoje um ano de existência com a passagem para português de um poema de Blaga Dimitrova, autora do primeiro poema aqui vertido).

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