quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Raymond Carver

O meu trabalho



Levanto os olhos e vejo-os vir
pela praia. O homem é novo
e traz o bebé numa bolsa.
Isto deixa-lhe as mãos livres,
pelo que pode ter numa a mão da sua mulher
e balancear a outra. Qualquer pessoa pode ver
como são felizes. E íntimos. Quanta certeza.
São mais felizes do que ninguém, e sabem-no.
Sentem-se agradecidos por isso, e são humildes.
Caminham até ao fim da praia
e deixo de os ver. É assim, penso,
e regresso ao que governa
a minha vida. Mas, passados alguns minutos,

eles estão de volta, ao longo da praia.
A única coisa diferente
é que mudaram de lado.
Ele está agora do outro lado dela,
do lado do oceano. Ela está deste lado.
Mas continuam de mãos dadas. Parecem até
mais apaixonados, se isso for possível. E é.
Eu mesmo passei por isto durante muito tempo.
A deles foi uma caminhada modesta, de quinze minutos,
pela praia, mais quinze minutos no regresso.
Tiveram que fazer o seu caminho
contornando algumas rochas e enormes troncos,
movendo-se depressa quando o mar assomava com violência.

Caminham tranquilamente, devagar, de mãos dadas.
Sabem que a água está ali
mas são tão felizes que a ignoram.
O amor nos seus rostos jovens. O seu enquadramento.
Talvez dure para sempre. Se tiverem sorte,
e forem bons, e lúcidos. E cuidadosos. Se
continuarem a amar-se sem limites.
Se forem verdadeiros um com o outro - isto acima de tudo.
E serão, eles sabem que sim.
Eu regresso ao meu trabalho. O meu trabalho regressa a mim.
Da água levanta-se algum vento.



(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Jaime Priede, reproduzidos em Todos nosostros, Bartleby Editores, Madrid, 4ª edição, 2007, pp. 134-135).