sábado, 21 de março de 2009

Raymond Carver

O teu cão morre



é apanhado por uma carrinha.
encontra-lo na berma da estrada
e enterra-lo.
sentes-te mal.
sentes-te mal por ti,
mas sentes-te pior pela tua filha
porque era o seu animal de estimação
e adorava-o.
costumava cantarolar para ele
e deixava-o dormir na sua cama.
escreves um poema sobre isso.
chamas-lhe um poema para a tua filha,
fala sobre o cão atropelado pela carrinha,
sobre o modo como te ocupaste dele,
como o levaste para o bosque
e o enterraste fundo, bem fundo,
e o poema sai-te tão bem
que quase te alegras com o atropelamento
do pobre cão, ou não terias
escrito um poema tão bom.
então sentas-te a escrever
um poema sobre a escrita de um poema
sobre a morte desse cão,
porém enquanto escreves
ouves uma mulher a gritar
o teu nome, o teu primeiro nome,
ambas as sílabas,
e o teu coração pára.
passa um instante e voltas a escrever.
ela grita de novo.
perguntas até onde isto pode ir.



(versão minha, a partir do original e da tradução espanhola de Jaime Priede, reproduzidos em Todos nosostros, tradução e prólogo de Jaime Priede, Bartleby Editores, Madrid, 4ª edição, 2007, pp. 32-33).

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