quinta-feira, 7 de maio de 2009

Jane Kenyon

A tigela azul



Como primitivos enterrámos o gato
com a sua tigela. De mãos nuas
amontoámos areia e cascalho
sobre a cova.
Com um silvo
e um baque caiu tudo sobre os seus flancos,
sobre a sua extensa pele vermelha, a plumagem
branca entre os seus dedos e o seu
longo, para não dizer aquilino, nariz.

Parámos e sacudimos o pó um ao outro.
Há desgostos mais fundos do que este.

Silenciosos o resto do dia trabalhámos,
comemos, olhámo-nos fixamente, dormimos. Toda a noite
houve temporal; agora o dia clareia, e um pintarroxo
gorjeia num arbusto gotejante
como o vizinho que nos quer bem
mas diz sempre a coisa errada.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

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