A noite no dia
A noite nunca quer acabar e entregar-se
à luz. Por isso emaranha-se em certas coisas: obsidiana, corvos.
Até no solstício do Verão, o dia do grande triunfo
da luz, quando os campos de girassóis se empanturram ao sol -
abrimos a melancia e cuspimos as sementes
negras, partículas da noite cintilando na erva.
(versão minha; original aqui).
3 comentários:
Especialmente lindo, especialmente a meu gosto, este poema.
:)
Lindo, não conhecia o autor mas fez-me lembrar este de quem gosto muito:
Paisagem VIII
As recordações começam ao cair da tarde
com o hálito do vento a erguer o rosto
e a escutar a voz do rio. A água
é a mesma, na escuridão, dos anos mortos.
No silêncio da escuridão eleva-se um murmúrio
onde passam vozes e risos distantes;
acompanha o rumor uma cor inútil,
de sol, margens e olhos claros.
Um Verão de vozes. Cada rosto contém
como um fruto maduro um sabor passado
Cada olhar que volta conserva um gosto
a erva e a coisas impregnadas de pôr-do-sol
na praia. Conserva um hálito de mar.
Como um mar nocturno é esta vaga sombra
de ânsias e arrepios antigos, que o céu roça
e que volta ao fim de cada dia. As vozes mortas
assemelham-se à rebentação daquele mar.
Cesare Pavese, Trabalhar cansa, (1997) 2008, Lisboa, Edições Cotovia, p.219
Obrigado pelos comentários
(um dos pequenos prazeres desta aventura é perceber que posso contribuir para o encontro entre um ou dois leitores e um poema de que gosto e que quis passar para português...).
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