quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mada Alderete

Nunca poderia ser Bukowski



nunca bebi um whisky inteiro
pelo que não poderia ser como ele
não sei o que se sente na pele de um sedutor
bêbedo, cansado e sujo,
eu teria cortado o cabelo
cheiraria a tangerina
e a minha casa seria branca
repara só no tempo que demorei com um pano
enquanto ele escrevia sem parar
não sou partidária da violação
não me entusiasma
importam-me as mulheres
não só como buraco e latrina
claro que não tenho nada pendurado entre as pernas
ansiando por uma estreita caverna diferente a toda a hora
isso conta bastante
bebo sumos nos bares
às vezes chá
e ao terceiro chá mudo para água mineral
porque me excita em demasia
poderia acontecer alguma coisa e eu não posso arriscar
bem vês
sou medrosa
assustar-me-ia ser como ele
tenho medo dos cães e das noites na rua
não sei vaguear sozinha à procura de sexo
nem sei onde se vendem drogas
nem quanto custam
se por acaso as pudesse pagar
às vezes vejo suspeitos cochichando em grupo
e não me aproximo
como de certeza ele faria
corro na outra direcção
aquela onde estão os bebés
que embalo encantada
conto-lhes histórias inocentes
nada bukowskianas
nunca amanheci cheia de litros de cerveja
e com cuecas com cheiros desconhecidos junto à cara
sempre fodi com um homem de cada vez
sem contar com os fantasmas
sofri mas mão me dava para sujar tudo e escrever
antes para chorar
e agora mudo de passeio se vejo que um danado me olha
porque sou cobarde
e porque não me porto mal
jamais existirão os meus melhores textos
posso sim
convidar-vos amanhã para abraços e pão-de-ló



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa espanõla, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile de Sol, 2ª edição, Tenerife, pp. 269-270).

4 comentários:

CristinaGS disse...

Tão belo!

Lp disse...

Concordo.

lenor disse...

Eu acho um bocado paranóico, mas não deixa de ser uma boa maneira de mostrar há quem não permita de modo nenhum que o deplorável e o feio entre na casa em que vive e que a mantém o mais cor-de-rosa possível.

Lp disse...

Gosto da falsa ingenuidade do poema e da "brincadeira" com a imagem batida do poeta-maldito; e gosto da ideia final, irónica, de que não se escreverá melhor porque, afinal, não se arrisca mais na vida (e, no entanto, escreve-se)... É esta a "beleza" que encontro no poema.