quinta-feira, 2 de julho de 2009

Thomas Lux

Um homem leva a filha de 5 anos a uma execução pública pela guilhotina, Paris, 1857




É um homem mau. Diz ele em francês
à sua filha, na mesma cidade,
no mesmo ano em que Charles Baudelaire
publicou As Flores do Mal.
O pai da criança acredita
na utilização democrática desta máquina
indolor, rápida, humanitária: "Uma doce donzela
cujo abraço impulsionará a alma - seja de quem for -
para o céu". "Se te portares mal...", diz ele,
que soube pela leitura que Goethe comprou para o filho
uma guilhotina de brincar -
mas esta criança pode ver.
Senta-a nos seus ombros.
Não consigo ver os fantoches, diz ela.
É um homem mau, diz-lhe o pai.
A multidão já viu tudo isto outras vezes.
Alguns trazem vinho, comida.
A lâmina cintila - passarão ainda quinze anos
até que, manchada de preto,
o seu brilho seja obscurecido,
e mais alguns para que amortecedores de borracha sejam acrescentados
de forma a reduzir o duplo (o ressalto) impacto
da lâmina.
Papá, continuo sem conseguir ver os fantoches.



(versão minha; original reproduzido em New & selected poems - 1975 - 1995, Mariner Books, Boston / Nova Iorque, 1997, p. 11).

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