quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Jane O. Wayne

Por acidente



Porque o trouxe comigo aqui
seguro-lhe a mão
enquanto o cirurgião lhe limpa a perna,
a este rapaz que mal conheço, uma criança
da idade da minha filha. Há anos atrás
uma enfermeira negra segurou
a minha mão branca num hospital e eu
apertei-a tanto como ele faz agora
uma estranha a que nunca se agradeceu
que nunca foi esquecida.

Eu sei como as coisas são,
como a dor nos fragiliza tão facilmente
como a força do hábito nos endurece, como
nos conhecemos agora e como, se nos voltarmos a encontrar,
vamos desviar o olhar, ambos,
o rapaz e eu,
como se do próprio golpe,
a branca costura abrindo-se em vermelho vivo,
nos afastássemos. Penso muitas vezes que,
havendo ocasião, podemos amar qualquer pessoa.



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 178).

1 comentário:

Veronica Luz disse...

Sim,meu querido, podemos sempre amar qualquer pessoa... amei vc quando li esse texto,amei, simples assim!