terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Marie Sheppard Williams

Toda a gente



Eu estava numa paragem de autocarro
numa destas tardes, esperando
pelo "2". Um tipo
mais velho esperava também.
Olhei-o com atenção. Ele
captou o meu olhar e arreganhou um sorriso
onde faltavam alguns dentes. Queres
assinar o meu casaco? disse ele.
Estendeu-me logo uma caneta. Trazia
vestido um casaco de lona imundo que
exibia assinaturas por todo
o lado, centenas delas, talvez
milhares.
Estou a ver
se apanho toda a gente,
disse ele.
Assinei. Na pequena
superfície de um dos bolsos.
Por vezes lembro-me:
sou uma parte de um todo.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

5 comentários:

CCF disse...

Fantástica a história, e bem bonita a conclusão.
~CC~

Lp disse...

O último verso tem muito que se lhe diga...

CristinaGS disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
CristinaGS disse...

Somos feitos de muitos pedacinhos de Eu que não fazem sentido nenhum se não forem matizados com muitos pedacinhos de Outros, não é ? Abraço de cá.

lenor disse...

Pois tem muito que se lhe diga, o último verso: que falta faz um grão de areia numa praia? Esta: sem nenhum grão de areia, não há praia.