sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

John Brehm

Os poemas que não escrevi



Sou tão loucamente improdutivo, os poemas
que não escrevi iriam daqui
à costa da Califórnia
se os pusessem uns a seguir aos outros.

E se os empilhassem,
os poemas que não escrevi
iriam oscilar como uma silenciosa
Torre de Babel, não dizendo nada

e dizendo tudo num milhar
de línguas diferentes. Tão comoventes, tão
cheios e tão vazios de sofrimento,
tão encharcados na música de uma voz

muda diante da verdade,
os poemas que não escrevi
iriam quebrar os corações de todas
as mulheres que um dia me abandonaram,

iriam levá-las a olhar os seus maridos
com um fino desprezo e a odiarem-se
a si mesmas por voltarem as costas
à verdadeira fonte da beleza.

Os poemas que não escrevi
haveriam de compelir todos os outros poetas
a perguntar a Deus: "Por que me
deixas viver? Eu sou desprezível,

por favor acaba de vez comigo,
destrói a minha obra e limpa
a terra de todas as minhas horríveis
imperfeições". As árvores iriam

curvar as suas cabeças diante dos poemas
que não escrevi. "Levem-me",
diriam elas, "e transformem-me
nas vossas páginas para que eu

possa viver para sempre como o chão
a partir do qual as vossas palavras se erguem."
O próprio vento, acerca do qual
eu poderia ter escrito tão eloquentemente,

louvando a sua suavidade e as suas cruzadas
correntes de ar, as suas grandiosas, calmas
e furiosas interrogações,
as suas lentas, melodiosas e apaixonadas

cesuras, iria desviar-se do seu curso,
descer precipitadamente e depois atravessar
os poemas que eu não escrevi,
e a vida que eu não vivi, a vida

que eu nem sequer consegui imaginar
e que eles, de forma tão perfeita, descreveriam.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Gareth Owen

Sem empreghabilidade



"Eu eshtumava tabalhá no cicu",
Disse ele
Por entre as saraivadas de gafanhotos expelidos pela sua boca.
"Oh", disse eu, "e o que fazia?"
"Eu eshtumava apanhá balash cosh dentsh".



(versão minha; original reproduzido em Strictly private - an anthology of poetry, selecção e organização de Roger McGough, Peguin/Puffin Books, Harmondsworth, 5ª reimpressão, 1987, p. 157

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Mark Strand

Comendo poesia



A tinta escorre pelos cantos da minha boca.
Não há felicidade igual à minha.
Estive a comer poesia.

A bibliotecária não acredita no que vê.
Os seus olhos são tristes
e ela caminha com as mãos no vestido.

Os poemas desapareceram.
A luz é baça.
Os cães estão nas escadas da cave e sobem.

Os seus globos oculares reviram-se,
as suas pernas ruças ardem como lenha.
A pobre bibliotecária começa a bater os pés e a verter lágrimas.

Ela não compreende.
Quando me ajoelho e lhe lambo a mão
põe-se aos gritos.

Sou um homem novo.
Rosno-lhe e ladro.
E brinco alegremente no meio da escuridão livresca.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 24 de janeiro de 2009

Goran Simic

Uma história de amor



A história de Bosko e Amira -
fugindo de Sarajevo tentaram atravessar uma ponte
cheios de esperança de que do outro lado
o maldito passado aparecesse com novas formas
que tornassem possível a existência de um futuro para eles -
foi o acontecimento mediático da Primavera.
A morte estava à sua espera no meio da ponte.
O homem que puxou o gatilho usava uniforme
e nunca foi acusado de homicídio.
Toda a imprensa mundial escreveu sobre eles.
Artigos italianos falaram do Romeu e da Julieta da Bósnia.
Jornalistas franceses louvaram a inseparabilidade do amor
capaz de rasgar as fronteiras políticas.
Os americanos reconheceram neles o símbolo comum
de duas nações divididas por uma ponte.
Os britânicos viram os seus cadáveres como exemplo
do absurdo das guerras.
E os russos permaneceram em silêncio.
As fotografias dos dois amantes espalharam-se
na florescente Primavera.
Só o meu amigo bósnio Prsic
que protegia a ponte
foi forçado a ver como dia após dia
os vermes as falsas verdades e os corvos
devoraram os corpos inchados de Bosko e Amira.
Eu ouvi-o blasfemar
quando o vento primaveril trouxe do outro lado da ponte
o fedor nauseabundo da deterioração
e o obrigou a colocar uma máscara de gás.
Mas isto não o mencionou nenhum jornal.



(versão minha, a partir da tradução inglesa - em segunda mão - de C. Polony, que pode ser lida algures aqui).

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Sharon Olds

Topografia



Depois de termos voado e cruzado o país
chegámos juntos à cama e deitámos
delicadamente os nossos corpos, como mapas dobrados
face a face, o Leste com o Oeste, a minha
São Francisco contra a tua Nova Iorque, a tua
Fire Island contra a minha Sonoma, a minha
Nova Orleães bem dentro do teu Texas, o teu Idaho
a resplandecer nos meus Grandes Lagos, o meu Kansas
a arder contra o teu Kansas o teu Kansas
a arder contra o meu Kansas, o teu fuso
horário de Leste pressionando o meu
Tempo Pacífico, o meu Tempo da Montanha
embatendo contra o teu Tempo da Pradaria, o teu
sol nascendo velozmente vindo da direita o meu
sol nascendo velozmente a partir da esquerda a tua
lua surgindo lentamente vinda da esquerda a minha
lua surgindo lentamente a partir da direita até
que os quatro corpos celestes
se incendeiam sobre nós, fundindo-nos,
todas as nossas cidades geminadas,
todos os nossos estados unidos, uma
nação indivisível, com liberdade e justiça para todos.



(versão minha; o original pode ser lido aqui; da autora foi traduzido para português, por Margarida Vale de Gato, o seu primeiro livro Satan says: Satanás diz, Antígona, Lisboa, 2004).

domingo, 18 de janeiro de 2009

David Allan Evans

Vizinhos



Eles vivem sós
um com o outro,

ela com o seu largo traseiro
e cara de papagaio,
ele com a sua barriga suspensa
e crista de galo.

Nunca conversam
mas estão sempre ocupados.

Hoje estão
a lavar janelas
(os dois juntos em cada janela)
ela da parte de dentro,
ele da parte de fora.
Ele pulveriza o Ajax
na cara dela,
ela pulveriza o Ajax
na cara dele.

Agora estão a acenar
um ao outro
com trapos,

não sorriem.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Izet Sarajlic

Herança



Os nossos antepassados deixaram-nos como herança
Schönbrunns,
Palácios de Inverno,
Pontes Carlos,
Praças de São Marcos,
e nem vou mencionar
os gigantescos Palácios de Westminster
nem
os Dramas de Shakespeare,
os romances de Tolstoi,
a suite nº 3 de Bach,

mas que deixaremos nós
aos nossos descendentes
como herança?

Snack-bares,
bombas de gasolina,
garagens,

e um ou outro anti-romance.




(versão minha a partir da tradução inglesa de Frans Vincke-Germain Droogenbroodt que pode ser lida aqui.)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Izet Sarajlic

Desde há tempos



Desde há tempos
que não me interessa em absoluto a poesia.

Interessa-me a vida.

Os piores lugares em poesia são, na realidade, a poesia.

Assim que a vida irrompe na poesia,
os versos, quase sem a intervenção do autor,
convertem-se em poesia.



(versão minha, a partir da tradução do servo-croata para o espanhol de Juan Vicente Piqueras que pode ser lida aqui).

domingo, 11 de janeiro de 2009

Zozan Hawez

Auto-retrato



Nascido numa família segura
Mas em terra perigosa, o Iraque,
Ouvi o som das armas desde pequeno, tão pequeno
Que foi decidido que iríamos para lugar seguro
Então encaixotámos as nossas coisas
E fomos para bem longe.

Agora, na cidade da chuva,
Procuro esquecer o meu passado,
Mas as memórias não se apagam.

Esta é a minha vida,
Não é assim por acaso,
Não sou assim por acaso.



(versão minha; o original pode ser lido aqui, onde se pode ler também que Zozan Hawez é um jovem refugiado político iraquiano, que estuda numa escola secundária em Tukwila, Washington, EUA).

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Bruce Hunter

Para uma definição de pornografia



Um. Homens e mulheres jovens com cursos de Literatura Inglesa, vivendo elegantemente em bairros miseráveis, escrevendo poesia - com uma linguagem sexualmente inclusiva - sobre violação, assassínio e violência doméstica, tudo o que acontece aos outros.

Dois. Em salões urbanos, igrejas, universidades, quem quer que seja empenhado num discurso politicamente correcto sobre a pornografia, a violência, ou a Nicarágua. Esta é a Verdadeira História, o poema que pode ser escrito.

Três. A minha mãe com uma faca. Isto é quando a definição se torna pessoal. Eu tenho dezassete anos. Ela caminha entre a minha irmã e o meu pai alcoólico. Nessa noite em que saí de casa. Um ano depois ela faz o mesmo. Algo sobre o qual Margaret Atwood não sabe nada.

Quatro. No tribunal, o juíz, dois advogados, todos homens. A minha mãe recebe um dólar por ano e assistência social. O meu pai compra uma casa nova.

Cinco. Os meus irmãos adolescentes na cadeia. Por pequenas ofensas, nenhum deles maldoso. Do outro lado da espessa janela de plexisglás, os rostos feridos. O elevador da esquadra da polícia parou entre os pisos. A lista telefónica aplicada contra o abdómen, contra as costelas. Hoje é sexta-feira. Segunda-feira de manhã não haverá danos visíveis diante do juíz.

Seis. A polícia visita a minha mãe à procura dos meus irmãos. São 4 da manhã. Isto acontece muitas vezes. As minhas irmãs são abordadas para identificação. Isto também acontece muitas vezes. Isto é o que se faz com os mais pobres neste país.

Esta noite algures nos vossos bairros vocês estão a falar de nós. Alguns de vós estão a escrever poemas, a tratar de doações, ou a fazer um filme. Para vocês isto está bem.

E a minha mãe agora vai às vossas igrejas. Ela perdoou-vos. Eu não.

(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, selecção e organização de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd., 2ª impressão, Saskatoon, 2006, pp. 114-115).

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Raymond Carver

O privilégio



Ou isto ou ir caçar linces
com o meu amigo Morris.
Tentar escrever um poema às seis
da manhã ou correr
atrás dos cães de caça com
uma espingarda nas mãos.
O coração dando saltos na sua jaula.
Tenho 45 anos. Não tenho ocupação.
Imagina o luxo desta vida.
Tenta imaginá-lo.
Pode ser que lhe faça companhia se for
amanhã. Mas pode ser que não.



(Versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Jaime Priede, reproduzidos em Todos nosotros, Bartleby Editores, Madrid, 4ª edição, 2007, pp. 102).

domingo, 4 de janeiro de 2009

Doug Beardsley

Rito de Passagem



Pai, quando roubei
Os três livros de banda desenhada aos doze anos
Não tinha a intenção de me transformar
Num ladrão. Sabia que tinha cometido um erro
Mas o desejo foi demasiado forte,
E apesar de ter dinheiro
No meu bolso, foi uma operação
Matemática que fez sentido
Para mim; uma paixão infantil
De ter estes livros e ser livre

De comprar outros e ter mais.
Não pagando por eles paguei
Um preço demasiado alto, envergonhando-te
E a tudo aquilo por que resistias
Na tua própria loja. Nessa noite
Decidi sozinho ir para a cama
Sem direito a jantar, ficando acordado
E sabendo que virias ao meu quarto
Para me punir. Continuo a ver
A tua boca atormentada a tremer

Sobre mim: "Por que fizeste isto,
Diz-me que estás arrependido"; a sentir como
Os meus braços me doíam enquanto os mantinha
Dobrados para trás pelos cotovelos
Para que lhes pudesses bater
Com as tuas mãos suaves.
Antes de eu
Adormecer encostaste a minha cabeça
À fivela do teu cinto:
Ambos ficando melhor enquanto chorávamos.



(versão minha dedicada a pb; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, organização e selecção de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd., Saskatoon, 2ª impressão, 2006, pp.14-15).

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Jay Ruzesky

Tiramos fotografias



Fazendo o meu melhor James Dean pela avenida.
Os ombros espetados,
o cigarro apertado ao canto da boca,
a gola levantada, as mãos nos bolsos do grande
e comprido casaco, franzindo
as sobrancelhas.
Caminhando sob os chuviscos.
Fotografamo-nos
ao espelho; compomos imagens na intimidade.
Aguardando pela Fúria de Viver
apanho-me
entre dois manequins nus
na montra de uma loja,
o fecho de correr aberto.
Clique.



(versão minha dedicada a jpb; original reproduzido em In the Clear, a contemporary canadian poetry anthology, selecção e organização de Allan Forrie, Patrick O'Rourke, Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd., 2ª impressão, Saskatoon, 2006, pp. 207-208).