sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Mark Strand

Os restos

Para Bill e Sandy Bailey


Esvazio-me dos nomes dos outros. Esvazio os meus bolsos.
Esvazio os meus sapatos e largo-os à beira do caminho.
À noite faço retroceder os relógios;
Abro o álbum de família e vejo como era em rapaz.

O que ganho com isto? As horas fizeram o seu trabalho.
Digo: o meu próprio nome. Digo: adeus.
As palavras seguem-se umas às outras seguindo o vento.
Amo a minha mulher mas mando-a embora.

Os meus pais deslocam-se dos seus tronos
para dentro dos quartos leitosos das nuvens. Como posso cantar?
O tempo diz-me o que sou. Mudo e sou o mesmo.
Esvazio-me da minha vida e a minha vida é o que me resta.



(versão minha; poema incluído em New selected poems, Knof, Nova Iorque, 2007, p. 45).

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Javier Salvago

Tesouro divino



A juventude passou.
Bem está o que acabou.
Não voltaria a ser jovem
nem que mo pagassem.

Pôr-me a andar de novo
pelo caminho trilhado
dos sonhos ilusórios
e das vagas verdades?

Começar outra vez
as velhas batalhas
e as suas velhas feridas?
Voltar às caminhadas

pela noite, pelo inferno,
ao gosto pela má
vida? Fazer de tudo,
que é comédia, um drama?

Voltar a alimentar-me
de mitos e falácias,
de modas e frenesim,
de palavras gastas?

Carregar aos ombros
a fastidiosa carga
de ser interessante,
original?... Que disparate!

Confiar, como ontem,
na vã esperança
de que tudo será
melhor amanhã?

Ter toda a vida
pela frente - tão longa -,
e o que já passou
não ser nem metade?

A juventude foi-se.
Fica bem o que acaba.
Não voltarei a ser jovem,
graças a Deus.



(Outubro, 1996)



(versão minha; poema do livro Variaciones y reincidencias, de 1997, que pode ser lido algures aqui).

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Ismail Kadare

Horários de comboios



Gosto da companhia desses horários dos comboios nas pequenas estações
Enquanto espero na plataforma húmida e contemplo a infinitude dos carris.
O uivo distante de uma locomotiva. O quê, o quê?
(Ninguém compreende a nebulosa linguagem das máquinas
a vapor)

Comboios de passageiros. Cisternas. Vagões cheios de minério
Passam sem cessar.
Assim passam os dias da tua vida pela estação do teu ser,
Cheios de vozes, ruídos, sinais
E do pesado minério da memória.




(versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, p. 1993, p. 84).

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Fatos Arapi

A vida



A vida é uma estação de comboios feita de separações
e encontros.
Nós somos viajantes em constante movimento,
Transportando nas mãos a nossa inseparável bagagem,
Uma pequena mala
Cheia de contendas, fúrias e memórias.




(versão minha a partir da tradução de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, introdução e tradução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 40).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Raymond Carver

O meu trabalho



Levanto os olhos e vejo-os vir
pela praia. O homem é novo
e traz o bebé numa bolsa.
Isto deixa-lhe as mãos livres,
pelo que pode ter numa a mão da sua mulher
e balancear a outra. Qualquer pessoa pode ver
como são felizes. E íntimos. Quanta certeza.
São mais felizes do que ninguém, e sabem-no.
Sentem-se agradecidos por isso, e são humildes.
Caminham até ao fim da praia
e deixo de os ver. É assim, penso,
e regresso ao que governa
a minha vida. Mas, passados alguns minutos,

eles estão de volta, ao longo da praia.
A única coisa diferente
é que mudaram de lado.
Ele está agora do outro lado dela,
do lado do oceano. Ela está deste lado.
Mas continuam de mãos dadas. Parecem até
mais apaixonados, se isso for possível. E é.
Eu mesmo passei por isto durante muito tempo.
A deles foi uma caminhada modesta, de quinze minutos,
pela praia, mais quinze minutos no regresso.
Tiveram que fazer o seu caminho
contornando algumas rochas e enormes troncos,
movendo-se depressa quando o mar assomava com violência.

Caminham tranquilamente, devagar, de mãos dadas.
Sabem que a água está ali
mas são tão felizes que a ignoram.
O amor nos seus rostos jovens. O seu enquadramento.
Talvez dure para sempre. Se tiverem sorte,
e forem bons, e lúcidos. E cuidadosos. Se
continuarem a amar-se sem limites.
Se forem verdadeiros um com o outro - isto acima de tudo.
E serão, eles sabem que sim.
Eu regresso ao meu trabalho. O meu trabalho regressa a mim.
Da água levanta-se algum vento.



(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Jaime Priede, reproduzidos em Todos nosostros, Bartleby Editores, Madrid, 4ª edição, 2007, pp. 134-135).

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Mark Strand

Manter as coisas intactas



Num campo
eu sou a ausência
de campo.
Este é
sempre o caso.
Onde quer que esteja
sou aquilo que falta.

Quando caminho
separo o ar
e o ar move-se
para ocupar os espaços
onde o meu corpo esteve.

Todos temos razões
para nos movermos.
Eu movo-me
para manter as coisas intactas.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Dritëro Agolli

Trabalho



Debaixo das suas unhas a sujidade era azul escura,
Sujidade vinda dos campos e dos prados,
Azul como as linhas no globo,
Como as cordas de um violino.
No banho não se pôde lavar
Com água e sabão.
Sujidade que penetrou nos sulcos dessas mãos silenciosamente
Como um arado rasgando a terra.
Eu conheço estes dedos tépidos,
Estes dedos bons.
As unhas do meu pai estavam azuis desta sujidade
Mesmo quando ele repousava no seu caixão.
Parecia não estar verdadeiramente morto,
Mas simplesmente a dormitar antes de ir para os campos
Por onde andaria até amanhecer,
Deitando-se de costas com a cabeça entre as palmas das suas mãos.




(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 56).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Dritëro Agolli

A pequena burguesia



Para quê tanta gritaria?
podemos sentar-nos na cozinha;
A comida cheira bem, não teremos fome;
Se tivermos sede,
podemos beber;
Se as nossas unhas crescerem demasiado,
podemos cortá-las!




(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 47).

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Jan Erik Vold

Hokusai o velho mestre, que pintou uma onda como nunca ninguém antes dele tinha pintado uma onda



Hokusai
viveu
quase até aos 90. Quando tinha 75
anos, disse

sobre a sua obra: comecei a desenhar
objectos quando tinha
6. O que fiz
antes dos 50 não tem

qualquer mérito. Quando tinha 70
ainda não conseguira
produzir
nada de bom. Aos 73

alcancei um entendimento
das formas
básicas dos animais
e das plantas. Quando chegar aos 80, esse entendimento

será mais profundo, e quando atingir os 90
conhecerei
os segredos
da minha arte

até ao âmago - então, quando tiver 100,
criarei
imagens merecedoras
de louvor. Isto para não falar

dos anos
que se seguirão.
Agora o mais importante
é continuar.



(versão minha, a partir da tradução inglesa do próprio poeta, reproduzida em The poetry of men's lives, organização de Fred Moramarco e Al Zolynas, The University of Georgia, Athens, 2004, pp. 296-295).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Martin Camaj

A minha terra



Quando morrer possa eu tornar-me erva
Da primavera nas minhas montanhas,
No outono serei semente.

Quando morrer possa eu tornar-me água,
A minha nebulosa respiração
Cairá sobre os prados como chuva.

Quando morrer possa eu tornar-me pedra,
Nos limites da minha terra
Possa ser eu um ponto de referência.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 32).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Blaga Dimitrova

A linguagem das aves


A linguagem das aves é o canto.
E o canto não sabe mentir.
Revela a dor mais oculta,
os arrebatamentos mais obscuros do amor.
Ao longe o canto sublinha já
a identidade exacta da ave:
rouxinol, papa-figos, merlo, tentilhão.
Quanto pode ser dito
à velocidade de trezentos sons por segundo?
Não há uma linguagem mais intensa,
mais livre, mais natural,
mais íntima, até à desolação,
que a gorjeada linguagem das aves.
Escutam-se umas às outras sem nunca se interromperem.
Não conhecem o mal-entendido,
e se o houver será migratório.
Não praticam a ambiguidade, a insinuação,
nem entendem erroneamente a súplica,
não silenciam a confissão.
Tudo emana claridade.
É por isso que o teu verso busca
aliterações, acordes de cordas, quiasmos,
pausas, ecos internos, refrães, síncopes?
Mas como se alcança a música
da reciprocidade consonante das aves?


(1987)


(versão minha a partir da tradução do búlgaro para o espanhol de Zhivka Baltadzieva, reproduzida em Espacios, edição bilingue, tradução e prólogo de Z. Baltadzieva, La Poesía, senõr hidalgo, Barcelona, 2006, p. 231).
(Este blogue comemora hoje um ano de existência com a passagem para português de um poema de Blaga Dimitrova, autora do primeiro poema aqui vertido).

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Jackie Kay

Outra pessoa



Se eu não fosse eu, seria outra pessoa.
Mas na verdade eu sou outra pessoa.
Tenho sido outra pessoa toda a minha vida.

Não é matéria de riso ir a qualquer lugar
sendo sempre outra pessoa: as pessoas enganam-se
a teu respeito; tu enganas-te a teu respeito.



(versão minha; original reproduzido em New blood, organização de Neil Astley, Bloodaxe Books, Newcastle, 1999, p. 80).