quinta-feira, 30 de abril de 2009

Charles Wright

O novo poema



Não se parecerá com o mar.
Não terá lodo nas suas mãos grossas.
Não fará parte do tempo atmosférico.

Não revelará o seu nome.
Não terá sonhos em que possas confiar.
Não será fotogénico.

Não dará atenção ao nosso desgosto.
Não servirá de consolo às nossas crianças.
Não poderá ajudar-nos.



(versão minha; original reproduzido em The generation of 2000 - contemporary american poets; organização e prefácio de William Heyen, Ontario Rewiew Press, Nova Iorque, 1984, p. 359).

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Bill Holm

Botão-de-ouvido



Botão-de-ouvido - uma pequena bolinha revestida de espuma
para usares como um brinco interior,
assim desfrutas de barulhos privados enquanto andas por aí
protegido de qualquer silêncio súbito.
Só tens de verificar a bateria e copiar
mil canções e histórias secretas
para esse pequeno casulo que trazes no bolso.
Agora estás a salvo dos outros barulhos produzidos
por outras pesssoas e máquinas, só por acaso
barulhos que não escolheste como teus.
Para ter a tua atenção, toco-te no braço -
para te revelar o tornado ou o urso polar.
Por vezes apanho-te a murmurar ou a falar para o ar
como se houvesse uma amante encolhida, à espera no teu ouvido.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 25 de abril de 2009

José Emílio Pacheco

Alta traição



Não amo a minha pátria.
O seu fulgor abstracto
não se deixa agarrar.
Mas (ainda que soe mal)
daria a vida
por dez lugares seus,
certa gente,
portos, bosques, desertos, fortalezas,
uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
várias figuras da sua história,
montanhas
- e três ou quatro rios.



(versão minha, corrigida; a primeira versão que propus foi produzida a partir da forma como o poema original surge aqui; mas esta fonte pode ser problemática uma vez que, posteriormente, tomei conhecimento desta tradução, através da qual me dei conta de falhas na minha proposta, que agora rectifico; tomo agora como texto de partida o poema tal como surge em Tarde o temprano (poemas 1958-2000), Fondo de Cultura Económica, edição de Ana Clavel, 3ª edição, 2ª reimpressão, Picacho-Ajusco, 2004, p. 73; pela alta traição, ainda que involuntária, ao autor e aos leitores, as minhas desculpas).

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Harold Norse

O comércio da poesia



o comércio da poesia
é a imagem de um rapaz
a fazer música e amor
com uma rapariga cujos interesses
em amor e música coincidem
com uma enorme aflição sentida
no interior de ambos como uma guitarra
corajosa ao sol quente e seco
da esperança onde homens selvagens e brutais
estão a rasgar a vida como uma página
de um livro
muito antigo
e amarelo.



(versão minha; original reproduzido em City Lights Pocket Poets Anthology, organização de Lawrence Ferlinghetti, City Lights Books, San Francisco, 1997, 3ª edição, p. 152)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Roger McGough

O Livro da Poesia Inglesa do Século Vinte da Oxford
(Recenseado por Georges Perec)



St psado volum rvla-s incontornávl para as pssoas qu gostam d posia.
Poma após poma, num glorioso fstim d posia.
Mmorávis comparaçõs, mtáforas, stão por toda a part
nquanto blas rimas, tanto como imagns, atravssam cada página.

Grands pomas de noms como Louis MacNic,
John Btjman, Hilair Blloc, T.S. Liot ou Td Hughs,
já para não falar do pota favorito de Larkin, Hardy, qu surg
com vint st pomas ao lado de apnas nov de W.B. Yats.

Sta antologia, apsar d duramnt criticada plos potas
nla não incluídos, acabará por afirmar-s como uma obra fundamntal
por muitos anos. A minha única qustão respita aos potas
d língua francsa qu foram xcluídos por razõs só conhcidas plo ditor.




Romancista francês, na fase da sua obra, Georges Perec publicou um romance com 50000 palavras, La Disparition, eliminando sistematicamente a letra "e".



(versão minha; original reproduzido em Collected poems, Peguin, 2ª edição, Londres, 2004, p. 303).

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Naomi Shihab Nye

Ombros



Um homem atravessa a rua à chuva,
caminhando suavemente, olhando duas vezes para norte
e para sul:
porque o seu filho dorme no seu ombro.

Nenhum carro deve salpicá-lo.
Nenhum carro pode aproximar-se demasiado da sua sombra.

Esta homem carrega a carga mais sensível do mundo
mas não há nenhuma marca disso.
Em nenhum lugar do seu blusão se diz FRÁGIL,
TRANSPORTAR COM CUIDADO.

O seu ouvido fica cheio com a respiração.
Ele ouve o murmúrio dos sonhos de um rapaz
bem dentro de si.

Não estaremos preparados
para viver neste mundo
se não tivermos o desejo de fazer a outro
o que este homem está a fazer.

A estrada será apenas imensa.
E a chuva não cessará nunca de cair.




(versão minha; original reproduzido em Tender spot - selected poems, Bloodaxe, Northumberland, 2008, p. 64).

sábado, 18 de abril de 2009

Naomi Shihab Nye

Aquele que vai rolando



Um rapaz disse-me que
se rolasse suficientemente depressa nos seus patins
a sua solidão não conseguiria apanhá-lo,

a melhor das razões que conheci até hoje
para querer ser um campeão.

O que eu procurei saber esta noite
pedalando com toda a força pela rua King William abaixo
é se isto tem tradução para bicicletas.

Que vitória! Deixares a tua ofegante
solidão para trás numa esquina qualquer
enquanto flutuas livremente dentro de uma nuvem
de inesperadas azáleas,
pétalas cor-de-rosa que nunca se sentiram sós,
não importando a lentidão com que cairam.




(versão minha; original reproduzido em Tender spot - selected poems, Bloodaxe, Northumberland, 2008, p. 85).

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Wendell Berry

A cobra



No fim de Outubro
encontrei no chão do bosque
uma pequena cobra cujo dorso
estava camuflado na negrura
das folhas mortas entre as quais se estendia.
O seu corpo engrossara com um rato
ou um pequeno pássaro. Estava fria,
tão entorpecida com a sua barriga cheia
e o ar outonal que nem se
dava ao trabalho de revoltear a língua.
Segurei-a durante muito tempo, pensando
na perfeição dos desenhos
negros no seu dorso, na morte
que a inchava, no seu frio bem vivo.
Agora esse frio permanece
na minha mão, e eu penso nela
deitada debaixo do gelo,
enorme com a morte a nutri-la
durante um longo sono.



(versão minha; original reproduzido em The generation of 2000 - contemporary american poets, prefácio e organização de William Heyer, Ontario Rewiew Press, Nova Iorque, 1984, p 16).

terça-feira, 14 de abril de 2009

Vorea Ujko

Três donzelas



Três donzelas puras,
Três donzelas, três irmãs,
Três vestidos de noiva bordados.
A mais nova disse
O amor há-de chegar,
Há-de chegar com a manhã.
De súbito chegou a morte
E levou-a.
Duas donzelas puras,
Duas donzelas, duas irmãs,
Dois vestidos de noiva bordados.
A segunda disse
Talvez a morte chegue
E só tu restarás.
Em breve chegou o amor
E levou-a.
E agora eu espero sozinha.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organizaçõa, tradução e introdução de R. Elsie, Forest/Book, Londdres, 1993, p. 61).

sábado, 11 de abril de 2009

Nan Cohen

Uma menina recém-nascida na Páscoa Judaica



Considera um alperce numa cesta cheia deles.
É muito parecido com todos os outros alperces -
um exemplar único, feito de pele e semente.

Agora pensa neste dia. Um que provavelmente esquecerás.
O teu próximo fôlego, um longo trago de ar.
Dia sagrado ou não, não importa.

Uma criança nasceu e não sabe que dia é hoje.
Nem pode imaginar a alegria particular do meu coração.
O sabor dos alperces permanece na loja à sua espera.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Martin Camaj

A um poeta moderno



O teu caminho é bom:
As Parcas têm os rostos mais repugnantes
Dos mitos clássicos. Não escreves sobre eles,
Mas sobre lajes e testas humanas
Cobertas de vincos, sobre o amor.

Os teus versos não são para serem lidos em silêncio
Nem ao microfone
Como os de outros poetas,

O coração
Ainda que debaixo de sete camadas de pele
É gelo,

Gelo
Ainda que debaixo de sete camadas de pele.



(versão minha, a partir da tradução para inglês de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de R. Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 33).

terça-feira, 7 de abril de 2009

Paul Muldoon

Conhecer os britânicos



Conhecemos os britânicos no fim do inverno.
O céu era cor de alfazema

e a neve alfazema-azul.
Eu podia ouvir, muito lá em baixo,

o ruído de duas correntes unindo-se
(ambas outrora geladas)

e, não menos estranho,
ouvir-me a gritar em francês

para lá da clareira
da floresta. Nem o general Jeffrey Amherst

nem o coronel Henry Bouquet
tinham estômago para o nosso tabaco de salgueiro.

Quanto ao desacostumado
perfume quando o coronel sacudiu o seu lenço

de bolso: C'est la lavande,
une fleur mauve comme le ciel.

Deram-nos seis anzóis
e duas mantas bordadas com varíola.



(versão minha, a partir do original e da tradução para espanhol de Dámaso Lopez Garcia, reproduzidos em Indecisiones, introdução, tradução e notas de D. López Garcia, Visor, Madrid, 2004, pp. 50-51).

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Anna Swir

Vamos atirar directamente ao coração



Nós vamos matar o nosso amor.

Vamos estrangulá-lo
como se estrangula um bebé.
Vamos pontapeá-lo
como se pontapeia um cão fiel.

Vamos arrancar
as suas asas vivas
como se faz
com um pássaro.

Vamos disparar sobre o seu coração
como disparamos
sobre nós.



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 1993, pp. 69-70).

sábado, 4 de abril de 2009

Anna Swir

Uma conversa nocturna muito triste



"Devias ter muitos amantes."
"Eu sei, querido."
"Eu tive muitas mulheres."
"Eu tive homens, querido."
"Estou acabado."
"Sim, querido."
"Não confies em mim."
"Não confio, querido."
"Tenho medo da morte."
"Eu também, querido."
"Não me vais deixar."
"Não, querido."
"Estou só."
"Também eu, querido."
"Abraça-me."
"Boa noite, querido."



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição, 1993, p. 69).

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Gerald Fleming

Longo casamento



Estás preocupado, por isso acorda-la
e falas para o escuro:
Pensas que tenho um cancro, dizes,
ou Havia vermes
naquela carne, ou Achas
que o nosso filho está bem, e é
realmente maravilhoso - quase
sagrado o modo como sentes
a carga da tua preocupação passar
miraculosamente de ti para ela -
Ui, o som da chuva é tão belo,
dizes - Vou voltar a adormecer.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Tadeusz Ròzewicz

Até ao coração



Eu vi
um especialista um talhante
enfiar a mão na boca
empurrá-la para baixo
através da goela do cordeiro
tocar o coração latejante
fechá-lo dentro do seu punho
e arrancá-lo só com
um puxão
sim senhor
era
um especialista



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Victor Contoski, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição, 1993, p. 267).

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Theodore Roethke

O morcego



De dia o morcego é primo do rato.
Gosta do sótão de uma velha casa.

Os seus dedos fazem de chapéu sobre a cabeça.
O pulso bate tão suavemente que o julgamos morto.

A meio da noite volteia em movimentos loucos
Entre as árvores que encaram a luz cortada.

Mas quando ele se revela contra o guarda-vento
Temos medo do que os nossos olhos viram:

Porque alguma coisa está errada, ou fora do lugar,
Quando ratos com asas podem exibir um rosto humano.



(versão minha, sem rimas; o original pode ser lido aqui).