terça-feira, 29 de setembro de 2009

Martín Espada

Regras para a "oficina de poesia" do Capitão Ahab em Provincetown



1. Sois livres de escrever um poema sobre qualquer assunto, desde que diga respeito à Baleia Branca.
2. Será concedido um dobrão de ouro ao primeiro que entre vós aviste num poema a Baleia Branca.
3. O Prémio Chamem-me Ismael será atribuído ao melhor poema sobre a Baleia Branca, o qual será publicado na Revista Baleia Branca.
4. O Piquenique e o Jogo de Beisebol de Homenagem a Herman Melville estarão abertos a todos aqueles que entre vós escrevam um poema sobre seguir o seu Capitão até aos fundos do inferno para matar a Baleia Branca.
5. Haverá um caixão gratuito à deriva para todo o participante na "oficina" que caia borda fora enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
6. Haverá uma perna gratuita, talhada em mandíbula de baleia, para todo o participante na oficina que seja atirado do mastro enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
7. Haverá um funeral gratuito em pleno oceano, que incluirá um coro de aguerridos lobos do mar entoando cânticos marítimos sobre a Baleia Branca, para todo o participante da "oficina" que seja decapitado enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
8. Aquele que entre vós não busque a Baleia Branca nos seus poemas será arpoado.
(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Óscar D. Sarmiento, Diogo Zaitegui e Pedro J. Miguel, reproduzida em Soldados en el jardín, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, p. 13).

domingo, 27 de setembro de 2009

Ivan Krustev

A história apócrifa da porcelana



A paixão pela porcelana, Europa do século XIX.
Serviços, elefantes e copos.
O mundo é vasto e bom,
Distinto, frágil, aristocrático.
E há algo para além disto,
O horizonte ergue-se transparente.
A América é só uma costa.
E a China um gato preto.
Montesquieu continua a redigir
As suas cartas sobre filósofos.
Os eruditos usam perucas
E as senhoras - flores.
Os soberanos não são dementes
E, no entanto, não são grandes inteligências.
Nenhum fantasma persegue a Europa
E o amor é fantasmagórico.
Infelizmente os poetas são de salão,
Felizmente os seus poemas não.
E a liberdade, como um jarro,
Está no centro do pensamento.
A nova história começa
Com fragmentos de porcelana.
Enterrada em pequenos elefantes brancos
Deixamos a idade da Razão para trás.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Belin Tonchev, reproduzida em Young poets of a new Bulgaria- an anthology, selecção e tradução de Belin Tonchev, introdução de Sebastian Barker, Forest Books, Londres, 1990, p. 42).

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Martín Espada

A república da poesia


Para o Chile



Na república da poesia
um comboio cheio de poetas
desliza para sul debaixo da chuva
tal como as ameixeiras balançam
e os cavalos escoiceiam o ar,
e as bandas filarmónicas
desfilam pelas ruas
com trompetes, com chapéus de coco,
seguidas pelo presidente
da república,
que aperta todas as mãos.

Na república da poesia
os monges imprimem versos sobre a noite
em caixas de chocolate conventual,
cozinhas em restaurantes
usam odes como receitas
de enguias ou alcachofras,
e os poetas comem à borla.

Na república da poesia
os poetas lêem para os babuínos
no jardim zoológico, e todos os primatas
- como poetas e babuínos - gritam de alegria.

Na república da poesia
os poetas alugam um helicóptero
para bombardearem o palácio nacional
com poemas impressos em marcadores de páginas
e toda a gente, cega pelas lágrimas,
se precipita no pátio
para apanhar um poema
que esvoaça caindo do céu.

Na república da poesia
a guarda do aeroporto
não autorizará a tua saída do país
até que lhe declames um poema
e ela diga Ah! Lindo.



(versão minha a partir do original, reproduzido aqui, e da tradução para espanhol de Óscar D. Sarmiento, Diego Zaitegui e Pedro J. Miguel incluída em Soldados en el jardín - Antologia 1989-2009, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, pp. 14-15).

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Jan Polkowski

Não escrevas nada...



Não escrevas nada. Deixa os outros falarem,
e mesmo que eles nunca usem palavras como:
revolução, liberdade, dignidade, humilhação,
mesmo que as suas línguas sejam apenas carne
e não cítaras, ou frescos, ou espadas, permite-lhes
que falem. Deixa o sangue correr
e o fogo propagar-se, deixa o tronco da limeira engrossar,
deixa a água e o fruto extraviarem-se.
Não retenhas o teu coração,
deixa-o beber e escutar.



(versão minha a partir da tradução de Donald Pirie reproduzida em Young poets of a new Poland, introdução e traduções de D. Pirie, Forest Books, Londres, 1993, p. 82.)

domingo, 20 de setembro de 2009

Margaret Atwood

Eles jantam fora



Nos restaurantes discutimos
qual de nós pagará o teu funeral

ainda que a verdadeira pergunta seja
se farei ou não de ti um ser imortal.

Neste momento só eu
posso fazê-lo e assim

levanto o garfo mágico
sobre o prato de carne e arroz frito

e cravo-o no teu coração.
Há um pequeno estalido, um zumbido

e da tua própria cabeça fendida
emerges incandescente;

o céu abre-se
uma voz canta O Amor É Uma

Coisa Esplendorosa
circulas suspenso por cima da cidade

com um fato azul e uma capa vermelha,
os teus olhos brilhando em uníssono.

Os outros comensais olham-te
alguns com temor, outros só com aborrecimento:

não conseguem decidir se és uma nova arma
ou apenas outro anúncio.

Quanto a mim, continuo a comer;
gostava mais de ti como eras,
mas tu sempre foste ambicioso.



(versão minha, a partir do original e da tradução para espanhol de Pilar Somacarrera Íñigo, reproduzidos em Juegos de poder, tradução, introdução e notas de P. S. Íñigo, Hiperión, Madrid, 2000, p. 33).

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Martín Espada

Blasfémia



Permitam que a blasfémia seja dita: a poesia pode salvar-nos,
não da maneira como um pescador iça para dentro do barco
o nadador que se afoga, não da maneira como Jesus, entre gritos,
promete vida eterna ao ladrão crucificado ao seu lado
no monte, mas ainda assim salvação.

Algures um condenado soluça sobre um livro de poemas
trazido da biblioteca da prisão, e eu conheço o motivo
pelo qual as suas mãos têm o cuidado de não quebrar as páginas tão frágeis.



(versão minha; original reproduzido aqui).

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Óscar Hahn

Numa estação de Metro



Desventurados os que avistaram
uma rapariga no Metro

e se apaixonaram de repente
e a seguiram enlouquecidos

e a perderam para sempre entre a multidão

Porque serão condenados
a vaguear sem rumo pelas estações

e a chorar com as canções de amor
que os músicos ambulantes cantam nos túneis

E se calhar o amor não é mais do que isso:

uma mulher ou um homem que sai de uma carruagem
numa qualquer estação de Metro

e resplandece por uns segundos
e desaparece na noite sem nome



(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 95).

sábado, 12 de setembro de 2009

Marcin Swietlicki

A palavra ética (24 de Março de 1988)



Varro as escadas que conduzem ao
Palácio das Artes. Isto não é uma metáfora:
é a realidade. Algum dinheiro extra.
A poesia precisa de sobreviver de alguma maneira. A poesia
tem que comer.
É primavera. O inverno deixou-nos a sua sujidade -
esta mistela branca tão facilmente transformada em lama
húmida, negra e pegajosa. Um monte
de beatas, papéis, caganitas de pássaros, fezes de cão e
um bocado que é provavelmente um excremento humano.
Isto também não é uma metáfora: é a realidade.
O meu uso das palavras trouxe-me
até aqui. O céu ficou limpo.
A chuva não lavará tudo isto.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Donald Pirie, reproduzida em Young poets of a new Poland, Forest Books, Londres, 1993, p. 169).

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Bronislaw Maj

Nunca escreverei um poema...



Nunca escreverei um poema longo: tudo
o que encontrei aqui impede-me
de dizer mentiras: isto existe entre
duas golfadas de ar, apenas num
relance, num só aprisionamento do coração. E agora
estou só, e o que está aqui comigo
chega apenas para uma dúzia (mais ou menos)
de pequenos versos, um poema tão breve como o instante de vida
de uma borboleta das couves, ou o fulgor de luz
na crista de uma onda,
de um ser humano, ou de uma catedral. Uma dúzia (mais
ou menos) de versos depois,
e o que existe entre eles: a perpétua
fulgurância da luz, a eternidade da vida de uma borboleta
e a humanidade que transcende
a morte.




(versão minha, a partir da tradução inglesa de Donald Pirie, reproduzida em Young poets of a new Poland, Forest Books, Londres, 1993, p. 61).

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Marie Howe

Depressa



Paramos na lavandaria e na mercearia
e na estação de serviço e no mercado da fruta e
Despacha-te querida, digo eu, depressa,
enquanto ela vai correndo dois ou três passos atrás de mim
com o casaco azul aberto e as meias descaídas.

Para onde quero eu que ela se apresse? Para a sua sepultura?
Para a minha? Para que se descubra um dia finalmente adulta?
Hoje, cumpridas todas as tarefas, digo-lhe,
Desculpa-me querida estou sempre a dizer-te que te despaches -
Vai tu à frente. Faz tu de mãe.

Então, Despacha-te, diz ela, muito segura, olhando
para trás, para mim, rindo-se. Despacha-te queridinha, diz ela,
despacha-te, depressa, tirando-me as chaves de casa das mãos.



(versão minha; original reproduzido aqui).

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Óscar Hahn

Retrato de família iraquiana



O pai de turbante
e denso bigode negro
com os braços cruzados
À esquerda a sua esposa
com a túnica bordada
e o véu branco
Ahmad e Zainab
os dois filhos pequenos
de mãos dadas
Os avós sentados
em cadeirões de verga
Todos a sorrir
numa fotografia meio chamuscada
encontrada entre os escombros
da sua casa
depois do bombardeamento



(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 46).

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Vladimíra Cerepková

Para Eva O.



Não me fales como a um morto
não me fales como se eu fosse um defunto
fala-me
como se eu ainda não tivesse nascido
fala-me como se eu fosse árvore



(versão minha, a partir da tradução francesa de Petr Král reproduzida em Anthologie de la poésie tchèque contemporaine: 1945-2000, Gallimard, Paris, 2002, p. 266).