segunda-feira, 19 de julho de 2010

Delmore Schwarts

Baudelaire



Ao adormecer, e mesmo enquanto durmo,
Oiço vozes que pronunciam, com toda a clareza,
Frases inteiras, corriqueiras e triviais,
Que nada têm a ver com os meus assuntos.

Querida Mãe, temos ainda tempo
Para sermos felizes? As minhas dívidas são imensas.
A minha conta bancária está sob a alçada do tribunal.
Nada sei. Nada posso saber.
Perdi a capacidade de realizar qualquer esforço.
Mas tu estás sempre de pedras na mão contra mim, sempre:
É verdade. Isto já vem desde a infância.

Pela primeira vez na minha longa vida
Sou quase feliz. O livro, praticamente terminado,
Quase me parece bom. Vai perdurar, um monumento
Às minhas obsessões, ao meu ódio, ao meu nojo.

As dívidas e a inquietação persistem e enfraquecem-me.
Satã aparece-me e diz-me docemente:
"Descansa por um dia! Hoje podes descansar e divertir-te.
Esta noite trabalharás." Quando a noite chega,
A minha mente, aterrorizada pelos pagamentos em atraso,
Enfastiada de tristeza, paralisada de impotência,
Promete: "Amanhã. Fá-lo-ei amanhã."
E amanhã a comédia de sempre será de novo representada
Com a mesma resolução, a mesma fraqueza.

Estou farto desta vida em quartos almofadados.
Estou farto de resfriados e enxaquecas:
Conheces a minha estranha vida. Cada dia traz
A sua dose de ira. Pouco sabes
Da vida de um poeta, querida Mãe: devo escrever poemas,
A mais desgastante das ocupações.

Estou triste esta manhã. Não me repreendas.
Escrevo-te de um café próximo da estação dos correios,
Entre os ruídos secos das bolas de bilhar, o retinir das loiças,
As batidas do meu coração. Encarregaram-me de escrever
Uma História da Caricatura. Encarregaram-me de escrever
Uma História da Escultura. Escreverei então uma história
Das caricaturas das esculturas de ti no meu coração?

Ainda que isto signifique para ti uma infindável agonia,
Ainda que não possas crer que seja necessário
E duvides que a soma seja adequada,
Peço-te, por favor, que me envies dinheiro suficiente para - pelo menos - três semanas.



(Versão minha a partir do texto original e da tradução espanhola de Roger Wolfe que podem, ambos, ser lidos algures por aqui).

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