domingo, 31 de janeiro de 2010

Elaine Equi

Adoecer juntos



No mundo pós-moderno
a sequela é sempre superior

ao original
e assim é até possível

que alguém como Tony Perkins
conheça uma miúda simpática no Psico 3

uma ex-freira suicida
também ela atormentada

por fantasias sexuais
de modo que ele pode ensinar-lhe alguma coisa

tão fora de moda como dançar
o fox-trot

e ela pode oferecer-lhe
uma bebida no seu quarto.

No Bates Motel
a água jorra do mesmo chuveiro

no qual a famosa cena do duche começa
mas agora parece agradavelmente referescante.



(versão minha; original reproduzido em Illinois Voices - an anthology of twentieth-century poetry, organização de Kevin Stein e G.E. Murray, University of Illinois Press, Urbana e Chicago, 2001, pp. 273-274).

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Halfdan Rasmussen

Sobre a perfeição



Cada vez que vou escrever o poema perfeito,
coisa que tento uma e outra vez,
a mão põe-se a tremer e ataca-me o reumatismo
e a esferográfica produz borrões.

E quando estou tranquilo e se aplacou o reumatismo
e a minha esferográfica escreve persistentemente,
é a minha mulher que entra de dois em dois minutos
a peguntar se terminei o supracitado poema.

E quando por fim logro redimi-lo
mediante dores e aflições
faltam esse tremor, esse reumatismo, esses borrões
que o perfeito tem, se é que existe.



(versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesía nórdica, prólogo e selecção do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 122).

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Peter Sandelin

Nunca...



Nunca
podemos repousar apoiados no ar

- Mas isso é culpa do ar?



(versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de poesía nórdica, prólogo e selecção do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 108).

domingo, 24 de janeiro de 2010

Poema popular sérvio (Charles Simic)

Irmãs sem irmão



Duas irmãs sem irmão
Fizeram um de seda para o partilharem -
De seda branca e vermelha.
Para a cintura usaram videira de framboesa,
Os olhos negros, duas pedras preciosas.
Para as sobrancelhas sanguessugas.
Os dentes pequeninos um fio de pérolas.
Alimentaram-no com mel e açúcar
E disseram-lhe: primeiro comemos, depois falamos.



(versão minha da tradução inglesa de Charles Simic deste poema popular sérvio de autoria anónima; esta tradução surge em The Horse Has Six Legs - an anthology of serbian poetry, organização, tradução e introdução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 11)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Göran Palm

Quando a tormenta...



Quando a tormenta derrubou as árvores
altas e, ao que parece, sãs,
a erva voltou a erguer-se do chão

como se nada tivesse acontecido.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesia nórdica, prólogo e selecção do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 14).

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Ernst Orvil

Relatividade



Quando os canhões retumbam
lá em Rakke
muda-se a borboleta
para outra flor.

Ou visto a partir da perspectiva
da borboleta: Quando se muda
a borboleta para outra flor
retumbam os canhões em Rakke.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesia nórdica, prólogo do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 93).

sábado, 16 de janeiro de 2010

Doug Anderson

Encontro na cidade



Eles estavam a defecar em público, disse ele,
e outro disse,
e a copular também,
e eu pensei, quantos, mil?
Todos os sem-abrigo estavam a copular em público? Que espectáculo.
Então alguém disse,
não eram todos os sem-abrigo,
e nós pudemos respirar melhor,
só uns quinze, se tantos, e eu pensei
que mesmo assim eram uns quantos para fazerem aquilo em público,
mas quando já estávamos no fim
parecia
que só tinha sido uma de cada:
uma cópula, uma defecação,
e então alguém acabou por dizer,
não é preciso ser um sem-abrigo para se fazer isso.



(versão minha; original reproduzido em Poetry like Bread: Poets of the political imagination, selecção de Martín Espada, Curbstone Press, 4ª edição, 2007, p. 42).

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Martín Espada

Quem se queima pela perfeição do papel



Aos dezasseis anos, depois das aulas,
eu trabalhei numa tipografia
que produzia blocos de impressos judiciais:
papel amarelo
amontoado em pilhas de dois metros de altura
que se desdobravam
enquanto eu colocava cartão
entre as páginas
e espalhava cola vermelha
de cima a baixo.
Sem luvas: as pontas dos dedos necessárias
à perfeição do trabalho
ajustavam exactamente o rectângulo de papel.
Amolecidas por volta das 9 da noite, as mãos
deslizavam ao longo de folhas bruscamente afiadas
e uniam fendas ocultas, mais finas
do que as gretas da pele.
Nesse momento a cola queimava,
as mãos suavam
e as palmas ardiam
até picarem o cartão do fim do turno.

Dez anos depois, na Faculdade de Direito,
eu sabia que qualquer bloco de impressos judiciais
fora colado com o lume de cortes invisíveis
e que cada livro de direito aberto
era um par de mãos a arder
virado para cima.



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, organização e introdução de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, pp. 56-57; existe uma tradução espanhola do poema, da autoria de Diego Zaitegui e Pedro J. Miguel, publicada na antologia Soldados en el jardín, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, p. 33).

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Bertolt Brecht

Fala a operários-actores dinamarqueses sobre a arte da observação
(3 excertos)


(...)

Não importa
A forma como olhas.
Mas aquilo que viste
E aquilo que revelas, isso importa.
Vale a pena saberes aquilo que sabes.
Observar-te-ão
Para ver quão bem observaste.
Mas aquele que apenas se observa a si mesmo
Nada ganha do conhecimento dos homens.
Demasiadamente de si esconde a si mesmo.
E nenhum homem é mais sábio do que ele próprio.
Logo, a tua aprendizagem deve começar no meio
Das vidas das outras pessoas. Transforma na tua primeira escola
O teu local de trabalho, a tua casa,
O lugar a que pertences,
A loja, a rua, o comboio.
Observa todos quantos o teu olhar alcance.
Observa os desconhecidos como se te fossem familiares
E aqueles que conheces como se te fossem estranhos.

(...)

Para observares deves aprender a comparar.
Para poderes comparar
Deves já ter observado.
Da observação nasce o conhecimento.
Mas é necessário conhecimento para observar.
Aquele que não sabe
O que fazer da sua observação
Observará erradamente.
O cultivador olhará para a macieira
Com um olhar mais apurado do que o transeunte errante.
Mas só quem sabe qual é o destino do homem
Pode com exactidão ver o homem.

(...)

Observa tudo isto atentamente.
Depois, a partir de todos os trabalhos suportados
Cria, então, no centro do teu espírito imagens
Desabrochando e crescendo como movimentos na história.



(tradução inédita de Ricardo Castro Ferreira a partir de uma versão inglesa reproduzida aqui e aqui; existe uma versão portuguesa integral do poema de Brecht, da autoria de Paulo Quintela, em Bertolt Brecht, Poemas, organização e prefácio de António Souza Ribeiro, Asa, Porto, 2007, pp. 281-285; é desta versão portuguesa que se retira o título desta nova tradução).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ko Un

Canguru



Quando os britânicos chegaram à Austrália
perguntaram a um aborígene
o que era aquilo que andava aos saltos
O nativo respondeu:
Canguru, eu não vos entendo

E o nome foi adoptado

Ah, não saber é melhor do que saber



(versão minha, a partir da tradução para espanhol de Joung Kwon Tae e Jorge Oredáin reproduzida em Cinco poetas contemporáneos de Corea, selecção dos tradutores, Editorial Aldus, Colonia Nápoles - México, 2006, p. 18).

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Pentti Saarikoski

O menino estava a brincar...


O menino estava a brincar na neve
Passei por ali com uma lâmina de gelo
na mão
escrevendo poemas no ar
O que estás a fazer? perguntou-me o menino
que brincava na neve
Escrevo poemas no ar
não vês?
Sim, vejo
mas isso vai gelar-te a mão
disse-me o menino que estava a brincar na neve



(versão minha a partir da tradução espanhola de Fernando J. Uriz, reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesia nórdica, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 91).

domingo, 3 de janeiro de 2010

Claribel Alegria

Ars poetica



Eu,
poeta de ofício,
condenada tantas vezes
a ser corvo,
nunca trocaria de lugar
com a Vénus de Milo:
enquanto ela reina no Louvre
e morre de tédio
e acumula pó
eu descubro o sol
todos os dias
e entre vales
vulcões
e despojos de guerra
avisto a terra prometida.



(versão minha; original reproduzido em Poetry like Bread: Poets of the political imagination, selecção de Martín Espada, Curbstone Press, 4ª edição, 2007, p. 16).

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Javier Salvago

Ano Novo



Como as coisas não podiam
piorar - escreveu Kafka,
no seu Diário -, melhoraram.

Como gostaria, diante deste negro
e inóspito horizonte que se abre
diante de mim - como um ano mais,
ou como um ano menos -,
de poder dizer o mesmo.
Sinto porém
que não toquei o fundo,
que há mais miséria, mais dor, mais tédio
mais à frente, que as coisas
podem piorar.
Que o pior, como alguém disse,
ainda está para chegar.


31, dezembro, 1996



(versão minha; o original pode ser lido algures por aqui).