terça-feira, 30 de março de 2010

Malena Mörling

Quando eu vivia perto do oceano



Quando eu vivia perto do oceano,
por uma ou duas vezes - de súbito -
quando não estava à espera,
quando estava a pensar em qualquer outra coisa,
eu olhei

e à luz do sol
através das cabeleiras verdes das árvores
vi o oceano.
Mas não foi a água,
foi algo de completamente diferente
que eu não conseguiria nomear.



(Versão minha; original reproduzido por Robert Hass em Now & then - the poet's choice columns: 1997-2000, Counterpoint, Berkeley, 2007, p. 170).

sábado, 27 de março de 2010

Nizar Qabbani

Eu nunca fui rei



Eu nunca fui rei
Nem provenho de uma família real
Mas pensar que agora me pertences
Dá-me uma sensação
De poder sobre os cinco continentes,
De controlo da chuva
E dos carros triunfais do vento,
De posse de milhares de acres
Sobre o sol,
De domínio sobre povos
Que nunca antes foram dominados,
E de prazer de brincar com as estrelas do sistema solar
Como uma criança brinca com conchas.
Eu nunca fui rei
Nem quero ser;
Mas quando sinto que adormeces
Na palma da minha mão
Imagino
Que sou um Czar da Rússia,
Um Xá da Pérsia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown reproduzida em Arabian Love Poems, A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, Londres, 1998, p.71).

quarta-feira, 24 de março de 2010

Langston Hughes

Poema



Eu adorava o meu amigo.
Ele partiu e deixou-me.
Não há mais nada a dizer.
O poema termina,
Suave como começou -
Eu adorava o meu amigo.



(Versão minha; original reproduzido em Poert's choice - poems for everyday life, selecção e introdução de Robert Hass, The Ecco Press, New Jersey, 1998, p. 98).

segunda-feira, 22 de março de 2010

Jane Mead

Ultrapassando à noite um camião cheio de galinhas na auto-estrada oitenta



O que me apanhou primeiro foi o seu pânico.

Algumas eram atiradas pelo vento provocado pela velocidade
para o fundo das suas gaiolas empilhadas,
outras tinham as cabeças presas entre as grelhas -

e não conseguiam puxá-las de novo para dentro.
Outras apenas suspensas - mortas -,
as penas batidas pelo ar, coagulando

nas suas cabeças. Então
eu vi aquela que me fez abrandar um pouco -
e demorei-me ao seu lado durante cinco milhas.

Ela tinha enfiado a cabeça no espaço
entre as barras - para poder ter uma vista melhor.
Tinha o mesmo aspecto que tem um cão na traseira

de uma carrinha de caixa aberta, esse aspecto ansioso de cão
que sabe que está a ser levado para longe.
Ela estendeu o pescoço.

Olhou em volta, observou-me, depois
esticou-o ainda mais para ver por cima do carro - esticou-o
para ver o que se passava mais além.

Essa é a galinha que eu quero ser.



(Versão minha; original reproduzido em Poet's choice - poems for everyday life, selecção e introdução de Robert Hass, The Ecco Press, New Jersey, 1998, p. 116).

sábado, 20 de março de 2010

Fabio Pusterla

Sábado em Sintra



O último pombo,
aquele que continua quando o resto do bando
já anda espalhado pelos telhados,
oculto entre muros,
o solitário em voo picado sobre as praças,
cego pelo sol,
talvez simplesmente mais silencioso do que os outros, indiferente
a esse estúpido cacarejar horizontal,
- enquanto desajeitadamente se perde,
grão a grão, o alimento oferecido -,
aquele que se atira para o vazio
de uma aventura imaginária, uma ameaça,
o medo de um assobio,
e extrai disso o voo e converte o perigo
num jogo de descidas e subidas bruscas,
a fuga para uma insensata corrida com a sombra
rápida da gaivota,
uma sombra que verdadeiramente voa e desaparece,
o pássaro que procura por todo o lado o vento das ruas
e das chaminés, que mergulha no trânsito e deixa
um monte repugnante de penas cinzentas
mesmo ao pé da tampa do esgoto,
não o olhes.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Chad Davidson reproduzida em New european poets, organização e introdução de Wayne Miller e Kevin Prufer, Graywolf Press, Saint Paul, Minnesota, 2008, p. 52).

quarta-feira, 17 de março de 2010

terça-feira, 16 de março de 2010

Nuala Ní Dhomhnail

O destino da linguagem



Disponho a minha esperança na água
neste pequeno barco
da linguagem, tal como alguém pode pôr
um menino

num cesto de folhas iridescentes
entrançadas
com o fundo calafetado
com betume e resina,

colocando depois o conjunto entre
as junças
e os juncos da margem
de um rio

apenas para que vá daqui para ali
sem saber onde pode acabar;
no colo, talvez,
de alguma filha do Faraó.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Paul Muldoon, reproduzida em New european poets, organização e introdução de Wayne Miller e Kevin Prufer, Graywolf Press, Saint Paul, Minnesota, 2008, p. 328).

domingo, 14 de março de 2010

Kathleen Spivack

Domingo



É domingo:
nos subúrbios do coração eles
lavam os carros.

Ela e as batatas
cozem na cozinha: o jantar
leva dez minutos a comer.

E ele levanta-se rapidamente com
as crianças: quem quer que
não tenha a sua custódia

pode visitá-las hoje.
A carne é maquilhada
e vestida: o pastor aperta-me a mão

como se o gesto tivesse significado.
O urso polar, por trás das grades,
ergue-se nas patas traseiras, e suspira.



(Versão minha; original reproduzido em Poetry from "Sojourner" - a feminist anthology, organização de Ruth Lepson e Lynne Yamaguchi, introdução de Mary Loeffelhoz, University of Illinois, Urbana e CHicago, 2004, p. 178).

quinta-feira, 11 de março de 2010

Jarkko Laine

Pelas noites leio mais a Bíblia



Os ruídos das rodas do carro no asfalto molhado:
viajar num táxi toda a vida
e crer firmemente que a fé não é inútil
e que, depois da esquina, se não a felicidade
pelo menos indícios dela; um novo pressentimento.
Na rua nocturna, porém,
as folhas mortas, empapadas, fazem a calçada
escorregadia à luz ténue dos faróis
e ninguém fala de modo natural.
Nos rostos que se esboçam na obscuridade
não se pode decifrar uma expressão compreensível.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Juana Ruiz e Jarkko Sirén reproduzida em Poesía Finlandesa Actual, Icaria Editorial, Barcelona, 1993, p. 115).

terça-feira, 9 de março de 2010

Thomas Brown

Respiração



às vezes
conhecemos alguém
que nos deixa sem respiração
e
temos medo
de voltar a respirar
sabendo
que ao fazê-lo
tudo pode mudar
e
queremos ficar presos
para sempre
a esse momento
em que tudo
parece tão perfeito
e certo
mas
não temos alternativa
a não ser
respirar de novo
e fazê-lo outra vez
até
que chegue o dia em que
já não o conseguimos fazer
e
podemos ter a esperança de que
entre esses momentos
a pessoa
que em tempos nos roubou a respiração
volte a fazê-lo
uma e outra vez
prometendo
sempre devolver-no-la
embora
planeando sempre
roubá-la
mais uma vez .



(Versão minha, com a colaboração de C.; original reproduzido em Best Modern Voices: words for the millennium, Wordclay, 2008, pp. 11-12).

sábado, 6 de março de 2010

Spencer Schenk-Wasson

Onde o céu acaba



O ceú acaba onde as montanhas
Perfuram o nevoeiro do anoitecer

O céu acaba onde a pintura da natureza
Atravessa o laranja dourado do horizonte

O céu acaba algures entre
As luzes cintilantes da cidade e o vazio do espaço

O céu acaba num lugar onde a tua
Consciência oscila entre a realidade e a beleza

O céu acaba num lugar que é tão magnífico
Que pode ser só imaginação tua



(Versão minha; original reproduzido em Best Modern Voices: words for the new millennium, Wordclay, 2008, p. 8).

quarta-feira, 3 de março de 2010

Nizar Qabbani

Quando encontrares um homem



Quando encontrares um homem
Que transforme
Cada partícula tua
Em poesia,
Que faça de cada um dos teus cabelos
Um poema,
Quando encontrares um homem
Capaz,
Como eu,
De te lavar e adornar
Com poesia,
Hei-de implorar-te
Que o sigas sem hesitação
Pois o que importa
Não é que sejas minha ou dele
Mas sim da poesia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown, reproduzida em Arabian Love Poems, A three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, Londres, 1998, p. 135).

segunda-feira, 1 de março de 2010

Nizar Qabbani

Eu conquisto o universo com palavras



Eu conquisto o universo com palavras.
Desonro a língua materna,
A sintaxe, a gramática,
Os verbos e os nomes,
Violo a virgindade das coisas
E crio uma língua nova
Que esconde o segredo do fogo
E o segredo da água.
Ilumino a nova era
E detenho o tempo nos teus olhos,
Apagando a linha que separa
Este instante da passagem dos anos.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown, reproduzida em Arabian Love Poems, A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, Londres, 1998, p. 223).