quarta-feira, 28 de abril de 2010

Roger Wolfe

Poesia



Pergunta-me o que é a poesia.
A poesia, respondo-lhe,
é uma manada de vacas a atravessar uma ponte
por cima de uma auto-estrada.

Então olha-me, e sorri,
e isso é também
poesia.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa 1986-2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 49).

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Roger Wolfe

Glosa de Celaya



A poesia
é uma arma
carregada de futuro.

E o futuro
é do Banco
Santander.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa 1986 - 2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 262).

sábado, 24 de abril de 2010

José María Micó

Breve História de Espanha



"Quando é preciso descobrir um Novo Mundo
ou domar o mouro,
ou há que medir o cinturão de ouro
do Equador, ou levantar sobre o profundo
espanto do erro negro que pesa
sobre a Cristandade o pensamento
que é amor em Teresa
e é claridade em Trento,
quando há que consumar a maravilha
de alguma nova façanha,
os anjos que estão à beira do seu Trono
olham para Deus... e pensam em Espanha."
(José María Pemán)




Tenho em casa o Poema
da Besta e o Anjo,
inveja de bibliófilos:
"Saragoça, Edições Jerarquía,
abril de mil novecentos e trinta e oito,
Segundo Ano Triunfal."
Certa dedicatória
do poeta a um amigo
seguramente médico
faz mais raro o meu exemplar.
Na primeira página, o tipógrafo
das Indústrias Gráficas Uriarte
dispôs sabiamente,
sobre papel precioso,
umas letras douradas:
"Franco, Calvo Sotelo, José António,
Sanjurjo, Mola."
Ainda se torna mais belo
o brilho desses nomes.
Com o seu fulgor acende-se
a lembrança e leva-me
às mesmas paragens,
ao campo descuidado de Pina de Ebro,
abril de mil novecentos e trinta e oito:
ali um mouro domado
por algum anjo espanhol daqueles
que olhavam para Deus
ceifou com tiros de espingarda cristã,
não com uma cimitarra feroz e herege,
os dias do soldado
Francisco Gómez Cuéllar,
morto aos trinta anos
com tempo suficiente
para manter viva a minha linhagem.




(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vázquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, pp. 249-250).

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Daniel Bristol

Devolucionista



Dantes eu era um oceano cheio de vida. Podia dar conta
de tudo, pois era com isso que se contava. Alargava-me
por milhas e costumava abarcar toda a terra. Costumava ser tudo
para toda a gente; terás só de acreditar na minha palavra.

Costumava ser um grande lago. Costumava ser o maior de todos.
Era o ventre de onde nascia a lua logo que o sol se punha.
Estava sempre a brilhar, chovesse ou fizesse sol, fosse dia ou noite.
Fui o lugar aonde trouxeste a tua namorada para a pedir em casamento.
Costumavas meditar sobre os teus dias à beira das minhas águas.

Depois transformei-me num pequeno lago perfeito para velejar. Os melhores
amigos passavam muito tempo a pescar e a rir até que o dia
terminava. Eu costumava ser o local de onde assistias ao fogo
de artifício do 4 de Julho. E gelei em Dezembro quando fiquei a saber que
o teu melhor amigo tinha morrido. Costumava até abraçar o chão
onde jaz agora o cão da tua família.

E depois fui um rio, correndo rapidamente, saltando o tempo. Costumava
transformar rochas aguçadas em pedras perfeitas para lançar sobre a água.
Costumava respirar de um modo constante. Costumava seguir o meu próprio
ritmo. Tu costumavas chegar-te a mim apenas para lavares os pés sujos.
Juntos observávamos as estrelas; costumávamos verter a mesma quantidade
de lágrimas. Vi-te florir e crescer; juntos partilhámos os melhores anos.

Mas agora sou um afluente debaixo de uma ponte desconhecida, algures. O tempo
encolheu-me, e aqui estou na minha solidão. Alguns dias são
melhores do que outros; a minha água flui e depois seca. Ter-me-ia
ajudado ter alguma companhia, ter junto de mim a minha amiga.
Mas na verdade não sei quando voltarei a vê-la.



(Versão minha; o original, reproduzido em Best modern voices: words for the new millennium, vol. 1, Wordclay, 2010, p. 5, pode ser lido algures por aqui).

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Katherine Hearst

Em boa companhia



E qual é o problema se tenho
o cabelo encaracolado
e as ancas largas?
Talvez não tenha os
dedos longos e elegantes que às vezes
gostaria de ter.
Posso colher margaridas na mesma.

Confesso -
não sou capaz de dizer o ano
em que Napoleão combateu em Waterloo
ou o número atómico do urânio.

É verdade que quando canto
me esqueço das palavras -
o meu chuveiro ainda não correu comigo.

Insuficiências
não me faltam.
Muitas coisas que não sou capaz de fazer,
muitas coisas que não faço
suficientemente bem.

Por outro lado, danço no ritmo certo.
Tenho o último parágrafo de O Grande Gatsby
guardado na memória
e faço um batido de fruta dos diabos.

Por cada parte minha que é insatisfatória
há uma parte
inteiramente satisfatória -
talvez até encantadora
ou, nos meus melhores dias,
maravilhosa.

Eu sou a minha única e fiável companhia nesta vida,
os amigos são arrastados pela corrente, a família desaparece e
os amantes vão para onde vão os amantes por muito
que queiramos que eles fiquem.

Tudo bem.
Eu gosto de mim.

E sou uma companhia muito boa.



(Versão minha; original reproduzido em Best modern voices: words for the millenium, vol. 1, Wordclay, 2010, pp. 70-71).

sexta-feira, 16 de abril de 2010

John Giorno

Um maquinista desempregado



Um maquinista
desempregado
Um maquinista desempregado
que chegou
aqui
que chegou aqui
vindo da Geórgia
vindo da Geórgia há 10 dias
há 10 dias
e não conseguiu arranjar
trabalho
e não conseguiu arranjar trabalho
dirigiu-se
ontem
a uma esquadra de polícia
dirigiu-se ontem a uma esquadra de polícia
e
disse
e disse:

"Estou cansado
de ter medo
Estou cansado de ter medo."



(Versão minha; original reprooduzido aqui).

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Hal Sirowitz

O meu peixinho dourado morto



Eu queria ter um jacaré como animal de estimação,
mas os meus pais arranjaram-me um peixinho dourado.
Quando ele morreu a minha mãe atirou-o pela sanita abaixo.
Disse-me que se o enterrássemos no jardim
um gato poderia desenterrá-lo & comê-lo.
Fiquei danado foi com o meu pai por usar a casa-de-banho
dez minutos depois do funeral.
Ele não tinha respeito nenhum pelos mortos.



(Versão minha; original reproduzido em Mother said, Crown Publishers, Nova Iorque, 1996, p. 26).

domingo, 11 de abril de 2010

Hal Sirowitz

Braço cortado



Não ponhas o teu braço fora da janela,
disse a Mãe. Um carro pode aparecer de repente
por trás de nós, e cortá-lo. Então o teu pai
terá que parar, colocar a parte separada
na bagageira, e levar-te ao hospital.
E isto não é como as peças do teu telescópio,
que se voltam a encaixar. Um médico terá que te coser.
Deixarás de poder usar camisolas de manga curta.
Não vais querer que se vejam os pontos.



(Versão minha; original reproduzido em Mother said, Crown Publishers, Nova Iorque, 1996, p. 14. Mais poemas do autor em português aqui e aqui).

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Roger Wolfe

Sabedoria



Uma mulher
que passa de bicicleta
às duas da manhã,
maravilhosas pernas morenas
dando aos pedais
enquanto a brisa lhe levanta o vestido
e revela
um perfeito milagre
de carne feminina em movimento.

Os nossos olhos
cruzam-se por um momento
e já se foi.

São coisas como esta
que te fazem dar conta
do pouco que realmente sabes
de nada.



(Versão minha; original aqui).

terça-feira, 6 de abril de 2010

Roger Wolfe

Pálpebra



Pedro Salinas
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Frances Driscoll

Vida real



Mas na vida real, começo eu. Só que o Doug
interrompe: O que aconteceu naquela noite foi
a vida real. Eu não sei do que é que ele está
a falar. Vida real é a minha irmã
estudar todas as semanas as notícias de bancarrota
que vêm no jornal e continuar a ter
dificuldades com as suas consoantes fricativas.
É o meu vidente descobrir nas cartas setas
de amor e correntes de vida. É o meu filho dizer-me
que eu sou a pessoa mais pateta que ele conhece
e trazer-me, de um concerto para casa, um par
de louras embriagadas do Mississippi,
fugidas de uma viagem de finalistas, que se recusam
a responder às minhas perguntas - Onde
está o resto da turma. Onde estão
os responsáveis por elas. É enxaguar os pratos
no lavatório da casa de banho depois dos canos da cozinha
terem rebentado sem aviso prévio e, cansada
das poses de Electra derramada na loiça chinesa
azul, arranjar espaço numa despensa
que alguém fez sem ter em conta as minhas
necessidades - e sem uma única prateleira.
Vida real é a Diana a escrever de Head
of the Tide, Maine, dizendo que anda feliz da vida
a reparar móveis estragados e a fixar lâmpadas.
É a Mary Kay a comer batatas fritas com passas
e a sentir-se furiosa com o pai dos seus filhos
por ele ter adoecido com pneumonia
numa viagem ao campo que ela era a única
a merecer. É a Bonnie, reconciliada com a estabilidade
negada por um homem, a produzir sons quase inaudíveis
enquanto vai engolindo alface misturada com geleia.
Na vida real uma menina balança-se
de um ramo de árvore florida sobre o meu terraço.
Tu sabes o segredo das árvores, grita ela
para a sua amiga. Quem espera
sempre alcança. Na vida real o meu peito fica apertado
e eu perdoo-lhe todas as flores brancas
que as suas pernas descuidadas atiraram ao chão.
Não esta menina. Nunca esta menina. Não
na vida real.



(Versão minha; original reproduzido em Poetry from "Sojourner" - a feminist anthology, organização e selecção de Ruth Lepson e Lynne Yamaguchi e introdução de Mary Loeffelholz, University of Illinois Press, Urbana e Chicago, 2004, pp. 49-50).