terça-feira, 30 de novembro de 2010

Erica-Lynn Gambino

É só para dizer

(para William Carlos Williams)



Só te
pedi que
saísses do meu
apartamento

mesmo que tu
nunca
tenhas pensado
que o faria

Perdoa-me
estavas
a pôr-me
doida



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin, Nova Iorque, 2002, p. 110).

domingo, 28 de novembro de 2010

Federico Gallego Ripoll

São os pássaros que levantam o dia para o cego



São os pássaros que levantam o dia para o cego.
Ouve-se a luz pendurada das árvores
e uma transfusão de sangue acelerado que acumula nos tímpanos
os latidos roubados à noite.

Amanhece.

Tíbias gotas de azul salpicam de manhã
os párabrisas dos carros.
Alguém, equivocado,
abriu o guarda-chuva pensando que chove.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vázquez Montalbán, Bartleby, Madrid, 20023, p. 49).

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Jane Kenyon

De outro modo



Usei a força das minhas duas pernas
para me levantar da cama.
Poderia ter sido
de outro modo. Comi
cereais - com leite
e doce - e um pêssego
perfeito e maduro. Poderia
ter sido de outro modo.
Subi a encosta com o cão
até ao bosque dos vidoeiros.
Durante toda a manhã
fiz o trabalho que adoro.

Ao meio-dia deitei-me
com o meu companheiro. Poderia
ter sido de outro modo.
Jantámos juntos
numa mesa com castiçais
de prata. Poderia
ter sido de outro modo.
Dormi numa cama
num quarto com quadros
nas paredes, e
planeei um novo dia
igual ao de hoje.
Mas um dia, eu sei,
será de outro modo.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

David Allan Evans

Rapariga andando a cavalo num campo de girassóis



Postura perfeitamente direita,
satisfeita e pensativa,
ela prende numa mão,
não segura, as rédeas do Verão:

o verde das árvores e dos arbustos;
o azul da água do lago;
o vermelho da jaqueta
e do colarinho aberto; o castanho
do seu cabelo, preso ao alto,
e do cavalo, bem no meio
do amarelo dos girassóis.

Quando ela pára para descansar,
o Verão descansa.
Quando ela decide partir,
assim se vai o Verão
para além do horizonte.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 20 de novembro de 2010

Roberto D. Malatesta

Exame de inglês



Líamos Dylan Thomas para o teu exame de inglês,
mas não estava ali o teu exame, a severidade de uma aula,
a lição decisiva que era preciso temer.
Estava, sim, a colina dos fetos
com o seu sol tombando em rios de ouro palpável,
estava o sol sobre os declives
na sua sagrada fascinação de beijar
as crianças que acabavam de começar a andar.
Estavam as eiras de feno a partir das quais
segui o trilho das ervas altas
que me levou aos caminhos da minha infância.
Não havia ali nenhum mundo maciço,
antes uma substância núbil cobrindo o ar
na qual as minhas palavras se lançavam felizes
pelo seu som, pela sua cadência e cor.
Em voz alta Dylan Thomas para o teu exame de inglês,
juntos aprovámos esse regaço de luz verbal
comovida entre as folhas frescas dos fetos.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel, reproduzidos em Voix d'Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (trois-Rivières - Québec) e Le Temps des Creises (Pantin), 2009, pp. 118-119).

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Jean L' Anselme

Versos sem brilho
(Arte poética)



Vinte vezes metido no trabalho
de tirar brilho à obra,
um verso demasiado polido
não deve permanecer na rede

Desconfiem dos versos esplendorosos.



(Versão minha; original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, selecção de Gérard Cartier e Francis Combes, Le Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 144).

domingo, 14 de novembro de 2010

Danijel Dragojevic

Os dias



Eu deveria ler a Bíblia.
Grande, negra, ela olha-me de uma estante.
Eu deveria lê-la, mas tenho medo
de tantas palavras, pensamentos, nomes, histórias,
de tantos avisos, saberes, intenções,
de uma voz remota de uma gravidade cinzenta.
Eu deveria ler, tenho medo de não ler,
tenho medo deste medo.
Eu deveria ler, mas não faço mais do que voltar
a cabeça e abrir a janela.
Que faria o homem se não tivesse uma janela?



(Versão minha a partir da tradução francesa de Brankica Radic reproduzida em Voix croisées: Croatie-France, Autre Sud, Hors-série, nº 6, Dez. 2009, Gémenos, p. 22)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sergio Rigazio

Sapos



quase na linha que limita a pobreza
molho os lábios com o que me é dado

algo me diz que tudo é uma benção
que até no mais perfeito caos há uma certa ordem

em redor da minha casa
por exemplo

penso nestas coisas
enquanto destapo o esgoto da cozinha

meto trinta e seis sapos num saco de supermercado
e penso que nos assemelhamos em alguma coisa

não fazem ideia para onde irão
mas ainda assim cantam



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières - Québec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, pp. 144-145).

domingo, 7 de novembro de 2010

Roberto D. Malatesta

Árvores



Algumas árvores que já não tenho
regressam-me em sonhos:
o salgueiro-chorão da minha infância,
a linha escura das sebes de ligustros,
as casuarianas e o seu modo de uivar,
um limoeiro que chega ao tecto,
uma figueira que viu a minha mãe crescer
e ao sol, à hora da sesta, me ouviu
conversar com a minha avó,
as folhas pesadas da árvore-da-borracha que oiço cair.
São tão nítidas
como se as tocasse depois de andar por um atalho
que envergonhasse o tempo.
Às vezes creio que alguma coisa delas
cresceu em mim,
que eu sou uma das minhas árvores.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières - Québec) e Les Temps des Cerises (Pantin), 2009, pp. 120-121).

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Gerardo Pico Manfredi

Alegria e fibras...



Alegria e fibras
são a base da nossa alimentação.
Beijo-te e regresso à cozinha.
Pico com paciência e rigor
cebola, pimento, alho francês.
Junto tudo às favas,
mais sal, pimentão, gengibre.
Deixo cozer em lume brando durante alguns minutos,
apago o fogo, junto salsa.
Farei também uma salada
de três cores: vermelho, laranja e verde.

Depois de comer hei-de ler-te este poema.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières - Québec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, pp. 126-127).

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Roberto D. Malatesta

Dois poemas nutritivos



Ela corta bocados de pão
e junta-os ao café com leite,
observo as suas mãos minuciosas,
a fronte concentrada,
o seu ar ritual;
ela bebe, eu alimento-me
dela e da sua tigela
azul com flores vermelhas.



****



Enquanto ela prepara o café
eu fico a pensar na lua,
não pela lua em si,
não porque seja a lua a interessar-me esta noite,
ou porque haja astronautas ou algum eclipse,
penso na lua lá fora
porque aqui dentro
- ela - prepara o café.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schavrtz e Gerardo Manfredi, tradução francesa de Nicole e Émile Martel, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières - Quebec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, p. 114).