quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Raymond Carver

Pelo menos



Quero levantar-me cedo uma manhã mais,
antes do nascer do sol. Antes mesmo dos pássaros.
Quero atirar água fria à minha cara
e estar à minha mesa de trabalho
quando o céu clarear e o fumo
começar a sair das chaminés
das outras casas.
Quero ver as ondas a quebrarem-se
nesta praia rochosa, não ouvi-las apenas
a bater, como fiz toda a noite durante o meu sono.
Quero ver de novo os navios
que passam pelo estreito vindos de todos
os países marítimos do mundo -
os cargueiros velhos e sujos movendo-se vagarosamente
e os novos e rápidos navios de carga
pintados, sob o sol, de todas as cores
que cortam a água à medida que avançam.
Quero manter-me de olhos bem abertos por eles.
E pelos pequenos barcos que manobram
na água entre os navios
e o porto, junto ao farol.
Quero vê-los a receberem um homem que sai do navio
e a pôr outro lá em cima, a bordo.
Quero passar o dia a ver isto a acontecer
e tirar as minhas próprias conclusões.
Detesto parecer ganancioso - e já tenho tanto
pelo qual devo ficar agradecido.
Mas quero levantar-me cedo mais uma manhã, pelo menos.
E ir para o meu lugar com algum café, e esperar.
Esperar, apenas, para ver o que irá acontecer.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin, Nova Iorque, 2002, pp. 8-9).

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Hélène Dorion

Pode-se viver muito bem...



Pode-se viver muito bem
sem nada mais do que estes privilégios quotidianos:
uma carta na caixa do correio, o barulho de uma vaga,
o azul sobre a planície, as palavras de um poema.
O universo reduzido a poucos vínculos
ao trajecto habitual
da sua própria morte.

Pode-se muito bem não ser mais
do que uma aventura de átomos e de questões insignificantes.



(Versão minha; original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, selecção de Gérard Cartier e Francis Combes, Les Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 82).

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Cecilia Woloch

Crianças vagarosas em jogo



Todas as crianças ligeiras foram para dentro, chamadas
pelas mães - despachem-se - lavem - as - mãos - queridos
o - jantar - está - a - arrefecer, ai - quando - o - vosso - pai - chegar - a - casa -
e só as crianças vagarosas ficam nos relvados, abrindo
caminhos por entre os pirilampos, produzindo sons doces e breves com as suas bocas, óóós
que brilham e se apagam e brilham. E as suas mães vagarosas e tremeluzentes,
pálidas na penumbra, observam-nas a rodopiar no ar suave,
observam-nas
a ziguezaguear, os braços bem abertos, pensando, Estes são os meus filhos, pensando,
Onde está o jantar deles? Para onde foi o pai deles?




(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keilor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 252).

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Raymond Carver

Os nus de Bonnard



A sua mulher. Durante quarenta anos ele pintou-a.
Uma e outra vez. O nu da última pintura
igual à jovem nudez da primeira. A sua mulher.

Tal como se recordava dela enquanto jovem. Como se ela o fosse.
A sua mulher no banho. Na sua cómoda
em frente ao espelho. Nua.

A sua mulher com as mãos debaixo dos seios,
olhando o jardim.
O sol concedendo cor e calor.

Todas as coisas vivas a florescer ali.
Ela jovem e trémula e tão desejável.
Quando ela morreu, ele pintou por mais algum tempo.

Algumas paisagens. Depois morreu.
E puseram-no junto dela.
A sua jovem mulher.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrisson Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 146).

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sara Teadsdale

Aquelas que amam



Aquelas que mais amam
Não falam do seu amor,
Francesca, Guinevère,
Deirdre, Isolda, Heloísa,
Nos jardins perfumados do paraíso
Ficam em silêncio, ou falam
De coisas frágeis e inconsequentes.

E uma mulher que eu costumava encontrar
E que amou um homem desde a juventude,
Lutando com orgulho sombrio
Contra a força do destino,
Nunca falou deste assunto,
Mas se por acaso ouvisse o nome dele
Uma luz havia de sobrevoar o seu rosto.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 137).

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Gerard Locklin

Onde estamos



(para edward field)



tenho inveja daqueles
que vivem em dois sítios:
nova iorque, digamos, e londres;
país de gales ou espanha;
l.a. e paris;
hawai e suíça.

há sempre a antevisão
da mudança, a possibilidade de que aquilo que está mal
resulta do sítio onde estamos. sempre
adorei não só a frescura
da chegada como o alívio da partida. com
duas casas qualquer movimento seria um regresso.
nem me estou a referir ao clima, quente
ou frio, seco ou húmido: falo de esperança.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 286).

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Leo Dangel

Depois de quarenta anos de casamento, ela experimenta uma nova receita de hambúrguer como prato quente



"O que é que achaste?", perguntou ela.

"Tudo bem", disse ele.

"Esta é a terceira vez que o faço
desta maneira. Porque é que
nunca dizes que gostas de alguma coisa?"

"Bem, se não tivesse gostado
não teria comido", disse ele.

"Nunca consegues dizer que uma coisa
feita por mim te sabe bem."

"Não sei porque é que pensas
que tenho de estar sempre a dizer que é bom.
Comi, não foi?"

"Não penso nada que tenhas de estar
sempre a dizer que é bom, mas de vez
em quando podias dizer
que gostas."

"Tudo bem", disse ele.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 136).

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

David Budbill

Os três objectivos



O primeiro objectivo é ver a coisa em si,
nela e por ela,vê-la simples e claramente
pelo que ela é.
Nenhum simbolismo, por favor.

O segundo objectivo é ver cada coisa em particular
como una, uma só, entre todas as outras
dez mil coisas.
Deste ponto de vista, algum vinho ajuda imenso.

O terceiro objectivo é vincular o primeiro e o segundo objectivos,
ver o universal e o particular
em simultâneo.
Quanto a este, chama-me quando o alcançares.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 225)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Wendy Cope

A laranja



À hora de almoço comprei uma laranja enorme -
O seu tamanho pôs-nos todos a rir.
Descasquei-a e dividi-a com o Robert e o Dave -
Cada um deles ficou com um quarto e eu com metade.

Fez-me tão feliz essa laranja -
Como me tem acontecido ultimamente
Com as coisas vulgares. As compras. Um passeio no parque.
Esta paz e satisfação. É uma novidade.

O resto do dia foi muito leve.
Cumpri com prazer todas as tarefas da minha lista
E ainda me sobrou tempo.
Amo-te. É maravilhoso viver.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 133).

domingo, 5 de dezembro de 2010

Yves Martin

Eu não quero cantar o povo...



Eu não quero cantar o povo
Porque não conheço o seu estreito sofrimento
Nem o seu lento amor, nem as suas guerras
Legítimas e ilegítimas.
Eu não quero cantar as mulheres
Porque não as conheço
A não ser como criaturas esplêndidas
Que não me amaram,
Que eu não soube amar.
Eu quero ser um homem
Nem demasiado seguro, nem demasiado amargo
E morrer devagar, docemente
E por vezes viver
Porque nada mais é possível.



(Versão minha; original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, selecção de Gérard Cartier e Francis Combes, Le Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 167).

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mou'in Bsissou

A Rimbaud



Assim que Rimbaud se tornou negreiro
e começou a lançar as redes
sobre a Abissínia
a caçar o leão negro
e o pelicano negro
abandonou a poesia
Como era leal, esse rapaz
Mais numerosos são esses que permaneceram poetas
e se tornaram negreiros
usurários
sem ainda assim abandonarem a poesia
Tornaram-se representantes de agências de publicidade
vendedores de quadros falsos
sem ainda assim abandonarem a poesia
Nos palácios dos déspotas os seus poemas transformaram-se
em portas e janelas
mesas e tapetes
mas eles não abandonaram a poesia
Dispuseram-se ao louvor
e receberam medalhas e honrarias de todos os potentados do mundo
a taça de ouro, de prata e de pedra
mas não abandonaram a poesia
A chancela dos polícias
as marcas das solas desses polícias cobrem-lhes os poemas
mas eles não abandonaram a poesia
Que nobreza, a de Rimbaud
como era leal, esse rapaz



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em La poésie palestinienne contemporaine, selecção e tradução de Abdelattif Laâbi, Le Temps des Cerises / Maison de la Poésie Rhône-Alpes, 2002, pp. 74-75).