quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Alexandra Domínguez

O poeta é um assunto alí no invisível



Esse homem é invisível, a sua matéria de calhandra é invisível,
anda no invisível com passos que produzem ruído nas ruas invisíveis,
come coisas invisíveis, respira o invisível, paga com moedas invisíveis.
O poeta é um assunto ali no invisível, cruza rios invisíveis,
deita-se com mulheres invisíveis, fala com palavras invisíveis.
Está em Dublin e é invisível, vai pelo ceú em aviões invisíveis,
no seu coração a melancolia é invisível, pensa em coisas invisíveis,
lê Kavanagh que escrevia livros invisíveis,
por exemplo isto é invisível: My soul is an old horse
offered for sale in twenty fairs*.
A sua fúria é invisível, a sua tempestade também é invisível,
trabalha numa fábrica invisível, gasta os cotovelos em hospedarias invisíveis,
Teillier era invisível, Parra é quase invisível, ninguém viu Rojas.
Os operários brindam no fim do dia com canecas invisíveis de cerveja,
os solitários instalam-se em hotéis invisíveis, falam ao telefone
com raparigas invisíveis, esperam em esquinas invisíveis por outros invisíveis.
No verão a chuva é invisível, abrem então um guarda-chuva invisível,
partem para regiões invisíveis para lerem poemas invisíveis,
encontram-se num parque com alguém invisível, amam o invisível.
O poeta é um assunto ali no invisível, até este poema é invisível,
um espelho é invisível, a cidade em que vivo é invisível,
o imprescindível e o insignificante, isso é o invisível.



(Versão minha; original reproduzido em Latitudes extremas - doce poetas chilenas y noruegas, selecção de Gonzalo Rojas e Inger Elisabeth Hansen, Tabla Rasa, Madrid, 2003, p. 57. *A minha alma é um cavalo gasto / posto à venda numa vintena de feiras).

5 comentários:

Marcela disse...

-Amo, sempre e invisivelmente, este blog.

Lp disse...

Muito obrigado.

Maria Costa disse...

Muito belo.

Obrigada.

a casa que caminha disse...

Excelente escolha, ao nível do que já nos habituou. Este poema seria um desanimador ponto final no universo poético, se a poesia não soubesse nadar. A criação última, com a passagem para o português está magnífica, resultando num poema de elevada qualidade.
Com o devido respeito, já o públiquei no meu blog. Abraços

António

Lp disse...

Obrigado, mais uma vez.