O ouriço desperta por fim no seu ninho de folhas secas,
e vêm-lhe à memória todas as palavras da sua língua,
que, contados os verbos, são pouco mais ou menos vinte sete.
Então pensa: O inverno terminou,
Sou um ouriço, Duas águias voam sobre mim;
Rã, Caracol, Aranha, Verme, Insecto,
Em que parte da montanha vos escondeis?
Aí está o rio, É o meu território, Tenho fome.
E volta a pensar: É o meu território, Tenho fome,
Rã, Caracol, Aranha, Verme, Insecto,
Em que parte da montanha vos escondeis?
No entanto, permanece quieto, como mais uma folha seca,
porque ainda é meio-dia e uma lei antiga
proíbe-lhe as águias, o sol e os céus azuis.
Anoitece porém, desaparecem as águias, e o ouriço,
Rã, Caracol, Aranha, Verme, Insecto,
Rejeita o rio e vai pelo sopé da montanha,
tão seguro dos seus espinhos como o pode estar
um guerreiro com o seu escudo, em Esparta ou em Corinto.
E de súbito atravessa o limite, a linha
que separa a terra e a erva da nova estrada,
num só instante entra no teu tempo e no meu;
E como o seu dicionário universal
não foi corrigido nem aumentado
nestes últimos sete mil anos,
não reconhece as luzes do nosso automóvel
e nem sequer se dá conta de que vai morrer.
(Versão minha a partir da versão castelhana do autor reproduzida em Poemas & híbridos, Visor, Madrid, 5ª edição, 2003, pp. 7-9).
3 comentários:
Lindo, triste e surpreendente, como a nossa vida.
: ) Carol
concordo.
Uno de mis poemas favoritos de Bernardo Atxaga. Suena fabulosamente bien en portugués. Un abrazo.
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