domingo, 24 de julho de 2011

Karin Gottshall

Terramoto



Quando te digo que desperdicei a minha infância
no mar deves ter bem presente
que eu posso ser uma narradora pouco fiável.

Quando afirmo que passei um ano
na academia militar, disfarçada de rapaz,
não acredites - ainda que seja verdade.

Todas as manhãs puxávamos o brilho às botas
- até ficarem esplendorosamente lustrosas - e corríamos pelos bosques
de abetos carregando espingardas vazias. Quando te digo

que adoro vinho branco é a mais pura das verdades.
Tal como o facto da minha mãe
ter sido pintora e o meu pai violoncelista -

ou físico. Confundo os dois.
E também fico confusa com o peso
relativo da minha solidão: parece tão pesada,

mas onde está ela? Sabes que sobrevivi
a um naufrágio? Que fiquei só
e vivi muito tempo numa ilha? Isto

explica certamente esta cicatriz em forma de anzol,
meu amor de sal. Não pedi ajuda
para suportar tais fardos. O terramoto agitou,

abalou os alicerces do edifício
e as varas da cama balançaram como
mastros. Largámos amarras. Todas as minhas mentiras

são tal e qual: viajam para tão longe
que vão além do horizonte e depois, por fim,
regressam: meu ente querido, enjoado do mar, há muito perdido.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

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