terça-feira, 5 de julho de 2011

Mark Strand

Dois cavalos



Numa noite quente de junho
fui ao lago, pus-me de quatro,
e bebi como um animal. Dois cavalos
aproximaram-se e, ao meu lado, beberam também.
Isto é incrível, pensei, mas quem irá acreditar?
Os cavalos olhavam-me de quando em quando, resfolgando
e saudando com a cabeça. Senti necessidade de responder, por isso também
[eu resfolguei,
mas titubeando, como se não quisesse ser verdadeiramente ouvido.
Os cavalos devem ter sentido que eu me retraía.
Afastaram-se um pouco. Então pensei que talvez me tivessem conhecido
numa outra vida - aquela em que fui poeta.
Podem inclusivamente ter lido os meus poemas, pois, então,
naquele tempo sombrio em que a nossa avidez não conhecia limites,
mudávamos de estilo quase tantas vezes como há dias no ano.



(Versão minha a partir do original e da tradução de Dámaso López García reproduzidos em Hombre y camello - poemas, Visor, Madrid, 2010, pp. 28-29).

3 comentários:

Daniel Curval disse...

este poema é belíssimo.

O seu trabalho de tradução e divulgação de poetas no blog é fabuloso de tão excelente e dedicado.

os meus sinceros cumprimentos,
abraço,
Daniel Curval

Lp disse...

obrigado e um abraço.

Edson Bueno de Camargo disse...

Angústia, tanto para ler e descobrir e uma vida só para isto.

Agradecido de sua iniciativa.