domingo, 29 de maio de 2011

Juan Bonilla

uma imagem de cummings



uma imagem de cummings
não me deixa dormir

a vida é um velho que caminha
com a cabeça cheia de flores

a quem leva flores esse velho?

talvez a quem não foi capaz de ser
o primeiro da turma
ou o soldado heróico
ou o homem que jogou uma partida com o campeão do mundo de xadrez
o activista político
ou aquele que se apaixonou por Gabriela Sabatini

cruza-se com os túmulos
onde estão incritos os nomes do que não existe
deposita as flores frescas de luz e sangue
que leva à cabeça

escuta os latidos do futuro
que ficou já para trás

e segue até ao seu túmulo, o real

todo o passado sempre à sua frente



(Versão minha; poema do livro Cháchara, Renacimiento, 2010, pp. 55-56; talvez seja interessante confrontar este poema com o de cummings que explicitamente o desencadeia).

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sons de uma noite de primavera

(The National: Campo Pequeno: Lisboa: 24 de Maio de 2011: fotos: Cristina P.)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Forugh Farrokhzad

Oferenda


Eu falo da profundidade da noite,
da escuridão abissal.

Se vieres a minha casa, amor,
traz-me luz.
E uma janela para que eu possa ver
a felicidade daquela rua repleta.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Nazanín Amirián, adaptada por Ferran Fernández e reproduzida em El viento nos llevará. Poesía persa contemporánea, Los Libros de la Frontera, 2ª edição, corrigida, Barcelona, 2006, p. 73).

terça-feira, 24 de maio de 2011

Juan Bonilla

O viajante



Ali de onde venho ninguém me retinha.
Sei que ninguém me espera aí para onde vou.

Pela janela desfilam imóveis as paisagens.
Seria maravilhoso não chegar a sítio nenhum.

Permanecer assim:
viajando de um lugar que já não existe
para outro que nunca existirá.



(Versão minha; poema incluído em Defensa personal (Antología poética 1992-2006), prólogo de Miguel Albero, Ranacimiento, Sevilha, 2009, p. 155).

domingo, 22 de maio de 2011

Ricardo Castro Ferreira

Sic transit...



























(Óleo sobre papel, 2011)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Hafid Gafaïti (5)

Última fonte



longe
à sombra dos camelos
para beber
o último nómada
recolhe as lágrimas das estrelas



(Versão inédita de António Ladeira; poema incluído no livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L ' Harmattan, Paris, 2008, p. 98)

terça-feira, 17 de maio de 2011

David Ignatow

Ao que chegam as coisas



Não sei qual devo lamentar. Ambos morreram para mim, a minha mulher e
o meu carro. Sinto-me muito em baixo por causa do meu carro, mas também
estou bastante afectado por causa da minha mulher. Sem o meu carro, não
posso sair de casa para evitar a solidão. A minha mulher deu-me dois
filhos, os quais, é claro,
já não viviam connosco, tal como se previa, tal como nós na nossa juventude
deixámos para trás os nossos pais. Com o meu carro, eu podia visitar os meus filhos
quando não estivessem demasiadamente ocupados.

Antes de morrer a minha mulher encorajou-me a encontrar outra mulher. É um conselho
que gostaria de seguir, mas não sem um carro. Sem um carro, não consigo
encontrar-me com outra mulher. É ao que chegam as coisas.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keilor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 244)

domingo, 15 de maio de 2011

Ricardo Castro Ferreira

Homenagem a Goya






















(Óleo sobre papel, 2011 - colecção particular)

sábado, 14 de maio de 2011

Hafid Gafaïti (4)

A sul do sul



no deserto
o tempo é um luxo
só espinhos e cactos
rompendo a cada raio

dormi na casa da estrangeira
a que se vestia de âmbar e almíscar
recusa a luz da sua vela
o perfume da sua pele

desde a morte da cidade existe uma regra
a que até os rebeldes obedecem
não mentir à mulher
que aprisiona areia em sua casa



(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L' Harmattan, Paris, 2008, p. 64).

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mark Strand

Fui um explorador polar



Na minha juventude fui um explorador polar
e passei noites e dias incontáveis gelando
de lugar vazio em lugar vazio. Por fim,
deixei de viajar e fiquei em casa,
aí cresceu em mim um repentino excesso de desejo,
como se me tivesse atravessado um resplandecente
feixe de luz daqueles que se vêem no interior de um diamante.
Enchi páginas e páginas com as visões que havia testemunhado -
os rugidos do gelo no mar, glaciares gigantes, o branco dos icebergues
chicoteado pelo vento. Então, sem nada mais para dizer, parei
e dirigi a minha atenção para o que me estava próximo. Quase ao mesmo
[tempo,
um homem de casaco negro e chapéu de aba larga
apareceu entre as árvores em frente à minha casa.
A forma como olhou a direito e ficou quieto,
sem se mover minimamente, os braços estendidos
ao longo do corpo, fizeram-me pensar que o conhecia.
Mas quando levantei a mão para o cumprimentar,
ele deu um passo atrás, voltou-se, e começou a desaparecer
como uma ânsia desaparece até que nada sobre dela.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Dámaso López Garcia, reproduzidos em Hombre y camello - poemas, Visor Libros, Madrid, 2010, pp. 26-27)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Ricardo Castro Ferreira

Melanchton









































































(Óleo sobre papel, 2011)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Hafid Gafaïti (3)

Areia e neve



de madrugada
enxame de pássaros
polvilhado de estrelas

à tarde
homem do sul
em terras brancas

ambos
gratos
de luz e júbilo



(Versão inédita de António Ladeira; poema do livro La tentation du désert / The temptation of the desert, L'Harmattan, Paris, 2008, p. 106)

domingo, 1 de maio de 2011

Juan Bonilla

Uivo



Eu vi os melhores da minha geração
destruídos pela ânsia de ganhar muito dinheiro.
Poetas conformando-se com letras de canção,
pintores desenhando sapatos para o estrangeiro.

O nosso Truman Capote aprendeu a lição
e emprega o seu talento de ávido comentador
num programa estúpido de televisão.
Mas tem um chalé, dez noivas, cem admiradores.

Quem estava destinado a fazer grande arte
ganha milhões com sloganes baratos.
O vanguardista exímio escreve em toda a parte.*

E o artista rebelde que viveu numa gruta
decidiu atraiçoar-se, farto de maus tratos.
Dedica-se ao mesmo que os outros: é puta.



(Versão minha; original incluído em Defensa personal (Antología poética 1992-2006), prólogo de Miguel Albero, Ranacimiento, Sevilha, 2009, p. 68)

*Variante: "Quem estava destinado a fazer a grande novela / ganha milhões com sloganes baratos. / O vanguardista exímio escreveu uma sequela."