quinta-feira, 30 de junho de 2011

Bernardo Atxaga

O ouriço



O ouriço desperta por fim no seu ninho de folhas secas,
e vêm-lhe à memória todas as palavras da sua língua,
que, contados os verbos, são pouco mais ou menos vinte sete.

Então pensa: O inverno terminou,
Sou um ouriço, Duas águias voam sobre mim;
Rã, Caracol, Aranha, Verme, Insecto,
Em que parte da montanha vos escondeis?
Aí está o rio, É o meu território, Tenho fome.

E volta a pensar: É o meu território, Tenho fome,
Rã, Caracol, Aranha, Verme, Insecto,
Em que parte da montanha vos escondeis?

No entanto, permanece quieto, como mais uma folha seca,
porque ainda é meio-dia e uma lei antiga
proíbe-lhe as águias, o sol e os céus azuis.

Anoitece porém, desaparecem as águias, e o ouriço,
Rã, Caracol, Aranha, Verme, Insecto,
Rejeita o rio e vai pelo sopé da montanha,
tão seguro dos seus espinhos como o pode estar
um guerreiro com o seu escudo, em Esparta ou em Corinto.

E de súbito atravessa o limite, a linha
que separa a terra e a erva da nova estrada,
num só instante entra no teu tempo e no meu;
E como o seu dicionário universal
não foi corrigido nem aumentado
nestes últimos sete mil anos,
não reconhece as luzes do nosso automóvel
e nem sequer se dá conta de que vai morrer.



(Versão minha a partir da versão castelhana do autor reproduzida em Poemas & híbridos, Visor, Madrid, 5ª edição, 2003, pp. 7-9).

terça-feira, 28 de junho de 2011

Inger Elisabeth Hansen

Cavalo, dirigido ao céu
sai precipitado de si mesmo como um efeito sem mundo



Os cavalos têm de permanecer inteiros
Os cavalos têm de permanecer inteiros no bosque
Os cavalos têm de permanecer no bosque à espera
Com os beiços cheios e descidos os cavalos têm de permanecer ali
Os cavalos têm de esperar ali onde se está sob as árvores
Ali onde a fonte se enche a si mesma têm de permanecer os cavalos
Os cavalos desenvolveram um instinto comum para conseguirem chegar aqui
Para cavalos que permanecem inteiros há um bosque por ali
Para cavalos que estão inteiros há grandes árvores
Há abrigos para cavalos que captaram tudo
Cavalos que trouxeram os beiços cheios para baixar
Cavalos que trouxeram o olhar até ali onde existe uma fonte
Há abrigo para os cavalos que souberam salvar a pele
Para os cavalos que têm uma pele que está cheia de cavalo
Ali os cavalos podem esperar repletos de cavalo
Virados para a terra, com os cascos descidos, com a cabeça descida
Com a cabeça feita para a terra que lhes dá de comer, que os deixa beber
Que os deixa encherem-se de cavalos minuciosamente delimitados
Salva a sua pele, os cavalos hão-de permanecer inteiros



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Kirsti Baggethun e Espido Freire reproduzida em Latitudes extremas - Doce poetas chilenas y noruegas, selecção de Gonzalo Rojas e Inger Elisabeth Hansen, Tabla Rasa, Madrid, 2003, p. 122)

domingo, 26 de junho de 2011

Cristina Peri Rossi

A vida sexual das palavras

a Julián Ríos



Sax e sexo: jazz
cio e céu: paraíso
Trieste e Dostoievsky: jogador
voz ma-terna: mimo
a tuba turba
a loba ao lupanar
e o cadáver à cova
a musa é a suma
fazê-lo fóssil metamorfose
por amor se escolhe o amo
chamo a mão que amo
o texto atesta
porém a palavra
abracadabra
abre as casas
as coisas
sem as quais
ousar falar
é de poetas.



(Versão minha; poema do livro Habitación de hotel, Plaza & Janes, Barcelona, 2007, p. 20)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Liu Chaichun (Século IX)

Esperando o regresso do meu marido
- Segundo a melodia "Luohongqu" -

III



Não te cases com um mercador:
terás de vender as tuas jóias
para pagar a adivinhos.
No rio, todas as manhãs,
olhas os barcos que chegam.
Crês ver o teu marido uma e outra vez.
Mas uma e outra vez acabas decepcionada.



(Versão minha a partir da tradução castelhana (?) de Guojian Chen reproduzida em Antología de poetas prostitutas chinas (Siglo V - Siglo XXI), Visor, Madrid, 2010, p. 70).

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Thomas Lux

Como Montezuma alimentou Cortés e os seus homens



Tamales, gostam de tamales,
coisa nova para eles (milho), ensopados em mel,
ou com pimentos
servidos em pratos de louça vermelha ou preta;
e coco com mel
em cabaças pintadas: eles eram deuses, e este
foi o pequeno-almoço, às 10 da manhã. O almoço
foi ao início da tarde, no período mais quente - Montezuma
e os seus mais numerosos rapazes (muitos
milhares) comeram bolos de milho, feijões, tomates
mas Cortés e os seus 500
para além disso tiveram
carne de veado, de cão, perú, montes de perú, faisão,
perdiz, porco do mato, iguanas, toda a espécie de patos
do Lago Texcoco.
Também lhes foram apresentados
mas não gostaram - eram deuses! - cardos, ratos
com molho, salamandras, larvas de mosca
de água, girinos, formigas, vermes de piteira.
Gostaram: de ovos de salamandra (um esquivo
gosto europeu) e de pequenas porções de espuma do lago (que
sabiam a queijo Manchego).
Nas crónicas não se faz menção
a que peyote ou cogumelos tenham sido oferecidos,
talvez porque Montezuma e os seus sacerdotes
os tenham comido todos
o que ajudará
a explicar por que pensaram que Cortés era um deus.
Depois do almoço, toda a gente - e até mais tarde,
quando começaram os combates - dormiu uma sesta.
O jantar foi tardio - aí pelas 9, 10, 11, tinha arrefecido
e a comida foi mais ou menos a mesma do almoço.
Não é preciso dizer-vos nada sobre setas e pedras,
arcabuzes e espadas.
Ou sobre cavalos.
Não é preciso dizer-vos nada sobre aposentos repletos de ouro.
Eles eram deuses
e estavam esfomeados, sempre esfomeados,
e a sua chegada tinha sido profetizada,
navegando vindos do leste
sobre o dorso de grandes aves marinhas,
navegando até chegarem a um velho mundo que designaram como novo
num dia cheio de sol e de luz
na primavera de 1519.



(Versão minha; poema incluído em New and selected poems - 1975/1995, Hougton Mifflin Company, Boston/Nova Iorque, 1997, pp. 16-17).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mark Strand

Mãe e filho



O filho entra no quarto da mãe
e fica junto à cama onde ela está deitada.
O filho acredita que ela quer dizer-lhe
o que ele anseia ouvir - que ele é o seu menino,
será sempre o seu menino. O filho inclina-se
para beijar os lábios da mãe, mas os lábios estão frios.
Começou o enterro dos sentimentos. O filho
toca as mãos da mãe pela última vez,
depois vira-se e vê a lua cheia.
Uma luz de cinza cruza o chão.
Se a lua pudesse falar, o que diria?
Se a lua pudesse falar, não diria nada.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Dámaso López García reproduzidos em  Hombre y camello, Visor, Madrid, 2010, pp. 58-59).

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Li Ye (?-784)

Oito superlativos



O mais próximo e o mais distante:
O oriente e o ocidente.
O mais profundo e o menos fundo:
Regato cristalino.
Os mais altos e os mais resplandecentes:
O sol e a lua.
Os que mais se amam e os que mais se desamam:
Marido e mulher.



(Versão minha a partir da tradução para castelhano de Guojian Chen (?) incluída em Antología de poetas prostitutas chinas (Siglo V - Siglo XXI), Visor, Madrid, 2010, p. 26).

terça-feira, 14 de junho de 2011

Milan Rúfus

Destino



A cabeça vendada
de Guillaume Apollinaire
inventa um poema.
Esquecidos do corpo
seguiamos-te, destino.
E o espinho na planta do pé
não o sentíamos. O calo na palma da mão
era parte dela como um sexto dedo, e sem ele
não era nossa.

Assim se enrosca o corpo,
adapta-se. Como uma ferradura
dobram-nos à medida
do inapreensível.

E nós pedimo-lo.
August Renoir
amarra-se ao pincel:
um instante mais, Senhor,
ata-nos mesmo que seja à cauda
do cavalo de Tróia.



(Versão minha a partir da tradução de Alejandro Hermida de Blas incluída em Campanas, edição bilingue eslovaco-espanhol, La Poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2003, p. 121).

domingo, 12 de junho de 2011

Juan Bonilla

Última imagem da destruição

William Carlos Williams



Estava muito frio
no dia em que enterrámos a gata

apanhámos o caixote onde dormia
e pegámos-lhe fogo
no pátio traseiro da casa

fugindo das chamas algumas pulgas
atiraram-se ao chão
morreram congeladas



(Versão minha; poema incluído em Defensa personal - Antología poética (1992-2006), Prólogo de Miguel Albero, Renacimiento, Sevillha, 2009, p. 143).

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Karmelo C. Iribarren

Por amor



Quis fazer-te mal
muitas vezes. Golpear-te,
enfurecer-me contigo,
fazer uso da famosa
crueldade mental
até te ver chorar, rir
como uma histérica.
Desejei-te muitas vezes o pior,
o mais baixo, o mais cruel,
o mais rasteiro e sujo
que um homem pode desejar
a uma mulher. E só por amor.



(Versão minha; poema incluído em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilha, 2005, p. 147).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Ahmad Shamlú

Da morte


Nunca tive medo da morte.
As suas mãos são mais frágeis do que a vulgaridade.
De todos os modos o meu temor
é morrer numa terra
onde o salário de um coveiro
é mais elevado do que a liberdade de um homem.

Procurar,
encontrar
e de imediato
escolher livremente
e construir uma torre
da natureza de si mesmo.

Se a morte tivesse mais valor do que tudo isto
juro que jamais fugiria dela.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Nazanín Amirián, adaptada por Ferran Fernández e incluída em El viento nos llevará. Poesía persa contemporánea, Los Libros de la Frontera, 2ª edição, corrigida, Barcelona, 2006, p. 90).

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Mark Strand

Fogueira


Às vezes havia uma fogueira e eu entrava nela
e dela saía ileso e seguia o meu caminho,
e para mim era apenas outra coisa que tinha feito.
Quanto a apagar a fogueira, isso deixava para outros
que se apressavam sobre o fumo revolto com vassouras
e mantas para sufocar as chamas. Quando terminavam,
juntavam-se confusamente para falar do que tinham visto -
da sorte que tinham por terem testemunhado o fulgor do calor,
o efeito silenciador das cinzas e, ainda mais, o terem conhecido a fragrância
do papel queimado, o som das palavras a exalar o último suspiro.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Dámaso López García reproduzidos em Hombre y camello - poemas, Visor Libros, Madrid, 2010, pp. 36-37).

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ahmad Shamlú

Amor



O amor cria amor
o amor cria vida
a vida cria sofrimentos
os sofrimentos criam inquietações
as inquietações criam coragem
a coragem cria confiança
a confiança cria esperança
a esperança cria vida
a vida cria amor
o amor cria amor.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Nazanín Amirián, adaptada por Ferran Fernández e incluída em El viento nos llevará. Poesía persa contemporánea, Los Libros de la Frontera, 2ª edição, corrigida, Barcelona, 2006, p. 88).