quarta-feira, 27 de julho de 2011

Juan Antonio González Iglesias

Arte de traduzir



Devemos celebrar as traduções felizes.
Como o Précis de décomposition
de Cioran, convertido
em Breviário de apodrecimento.
Em momentos de máxima insegurança cultural
a arte de traduzir ergue-se
como última forma de conhecimento.
Agora que a torre da história
sofre assédios que podem ser os definitivos
temos de recorrer aos especialistas
e aos que traduzem
sem precipitação e com audácia
intuindo o sentido final dos escritos.
Para compreender tudo
o que se passa nestes anos,
basta este livro
de Arnaldo Momigliano
que trata de uma outra época:
The Alien Wisdom, que alguém traduziu
de forma tão bela por A sabedoria
dos bárbaros.



(Versão minha; poema incluído em Del lado del amor - Poesía reunida (1994-2009), prólogo de Guillermo Carnero, Visor, Madrid, 2010, p. 309).

domingo, 24 de julho de 2011

Karin Gottshall

Terramoto



Quando te digo que desperdicei a minha infância
no mar deves ter bem presente
que eu posso ser uma narradora pouco fiável.

Quando afirmo que passei um ano
na academia militar, disfarçada de rapaz,
não acredites - ainda que seja verdade.

Todas as manhãs puxávamos o brilho às botas
- até ficarem esplendorosamente lustrosas - e corríamos pelos bosques
de abetos carregando espingardas vazias. Quando te digo

que adoro vinho branco é a mais pura das verdades.
Tal como o facto da minha mãe
ter sido pintora e o meu pai violoncelista -

ou físico. Confundo os dois.
E também fico confusa com o peso
relativo da minha solidão: parece tão pesada,

mas onde está ela? Sabes que sobrevivi
a um naufrágio? Que fiquei só
e vivi muito tempo numa ilha? Isto

explica certamente esta cicatriz em forma de anzol,
meu amor de sal. Não pedi ajuda
para suportar tais fardos. O terramoto agitou,

abalou os alicerces do edifício
e as varas da cama balançaram como
mastros. Largámos amarras. Todas as minhas mentiras

são tal e qual: viajam para tão longe
que vão além do horizonte e depois, por fim,
regressam: meu ente querido, enjoado do mar, há muito perdido.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Liu Chaichun (Século IX)

Esperando o regresso do meu marido
- Segundo a melodia "Luohongqu" - V



O dia de hoje substitui o de ontem
e o presente ano o que já é passado.
O rio Amarelo, que dizem ser sempre turvo,
um dia será claro.
Mas nunca voltarão a ser negros
os meus cabelos já brancos.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Guojian Chen reproduzida na Antología de poetas prostitutas chinas (Siglo V - Siglo XXI), Visor, Madrid, 2010, p. 74).

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Diego Ropero-Regidor

Confesso que não vivi



O vento solta o perfume ressequido
das rosas. Cheira a terra.
O assobio das raízes contrai
as últimas gotas de orvalho.
Vivo no meio de uma lagoa.
Sinto saudades da lentidão do caracol.
Confesso que consegui evitar a aridez
que o desamor me impôs.



(Versão minha e de Ricardo Castro Ferreira; poema publicado em Isla de Siltolá - Revista de Poesía, nº 4, Ediciones de La Isla de Siltolá, Sevilha, 2011, p. 17).

sábado, 16 de julho de 2011

Roger McGough

Cinco truques para te ajudar a atravessar uma floresta negra em segurança noite dentro



1. Assobia uma melodia que o teu pai tenha assobiado quando eras criança

2. Cruza os dois primeiros dedos da tua mão esquerda

3. Se perderes de vista a lua guarda-a na retina da tua mente

4. Imagina as cores que te cercam quando esperas o primeiro beijo da manhã

5. Traz uma Kalashnikov no porta-luvas.




(Versão minha; poema incluído em The state of poetry, Londres, Peguin, 2005, p. 11).

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Juan Antonio González Iglesias

Ai dos que propõem a vida como uma operação incessante de conhecimento



Ai dos que propõem a vida como uma operação incessante de conhecimento.
Os que pretendem impor-nos o seu excesso e a sua tristeza.
Os que não se detêm.
Não há assunto incessante que não se chame vida
ou simplesmente amor.
Nijinski disse algo muito parecido com isto:
As pessoas que pensam demasiado
acabam a escrever
coisas absurdas sobre a beleza.



(Versão minha; poema incluído em Del lado del amor - Poesía reunida (1994-2009); prólogo de Guillermo Carnero, Visor, Madrid, 2010, p. 172).

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Liu Chaichun (Século IX)

Esperando o regresso do meu marido
- Segundo a melodia "Luohongqu"



Naquele ano, quando nos despedimos,
disseste-me que ias a Tong Lu.
Mas lá ninguém te encontra.
Hoje recebi uma carta
que me enviaste de Cantão,
cidade muito mais distante.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Guojian Chen reproduzida na Antología de poetas prostitutas chinas (Siglo V - Siglo XXI), Visor, Madrid, 2010, p. 70).

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Xue Tao (768 - 862)

Contemplação primaveril



Lamento que, quando se abrem as flores,
não as possamos contemplar juntos.
Quando caem, partilhamos as penas,
mas em lugares diferentes.
Alguém pergunta-me:
- Que tempo te provoca
mais sofrimentos de amor?
Eis a minha resposta:
os dias em que se abrem as flores
e também aqueles em que tombam por terra.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Guojian Chen reproduzida em Antología de poetas prostitutas chinas (Siglo V - Siglo XXI), Visor, Madrid, 2010, p. 34).

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Jack Agüeros

O New York Times realizou um pequeno filme sobre Jack Agüeros, poeta nova-iorquino que sofre da doença de Alzheimer e que perdeu a capacidade de ler, escrever e lembrar:

terça-feira, 5 de julho de 2011

Mark Strand

Dois cavalos



Numa noite quente de junho
fui ao lago, pus-me de quatro,
e bebi como um animal. Dois cavalos
aproximaram-se e, ao meu lado, beberam também.
Isto é incrível, pensei, mas quem irá acreditar?
Os cavalos olhavam-me de quando em quando, resfolgando
e saudando com a cabeça. Senti necessidade de responder, por isso também
[eu resfolguei,
mas titubeando, como se não quisesse ser verdadeiramente ouvido.
Os cavalos devem ter sentido que eu me retraía.
Afastaram-se um pouco. Então pensei que talvez me tivessem conhecido
numa outra vida - aquela em que fui poeta.
Podem inclusivamente ter lido os meus poemas, pois, então,
naquele tempo sombrio em que a nossa avidez não conhecia limites,
mudávamos de estilo quase tantas vezes como há dias no ano.



(Versão minha a partir do original e da tradução de Dámaso López García reproduzidos em Hombre y camello - poemas, Visor, Madrid, 2010, pp. 28-29).

sábado, 2 de julho de 2011

Karin Gottshall

Mais mentiras



Às vezes digo que me vou encontrar com a minha irmã no café -
mesmo não tendo qualquer irmã - só porque é uma coisa
linda de se dizer. Tenho pensado nisto desde que

li um romance no qual duas irmãs estavam sempre a encontrar-se
em cafés. Hoje, por exemplo, caminhei sozinha
pelo passeio, com as minhas botas para a chuva, esperando

que alguém me perguntasse para onde me dirigia. Comprei
um bloco de notas e uma pilha para o relógio, as montras da loja
estavam embaciadas. Chuva em Abril é uma espécie de promessa, e

gratuita. Levei um saco com livros para o café e pedi
chá. Gosto de sítios iluminados por lâmpadas. Gosto de sítios
onde se pode ouvir as pessoas a falarem de coisas sem imporância,

como a diferença entre o azul-celeste e o azul-cerúleo,
ou o preço das tulipas. Que está a descer. Reparei
em alguém que podia ser minha irmã a entrar, e a sacudir a chuva

dos cabelos. Pensei, mesmo agora as floristas estão a encher
as estantes frigoríficas com tulipas, a cinco dólares o molho. Por toda
a cidade há irmãs.Qualquer uma delas poderia ser a minha.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).