sábado, 31 de dezembro de 2011

Robert Duncan (1919-1988)

Entre os meus amigos



Entre os meus amigos o amor é uma grande tristeza.
Tornou-se um fardo diário, um festim,
uma guloseima para loucos, uma fome para o coração.
Visitamo-nos uns aos outros perguntando, dizendo uns aos outros.
Não ardemos intensamente, questionamos o fogo.
Não caímos para a frente com os nossos rostos vivos
e ardentes a olhar para dentro do fogo.
Fixamente olhamos para dentro dos nossos próprios rostos.
Tornámo-nos as nossas próprias realidades.
Procuramos esgotar a nossa absoluta incapacidade de amor.

Entre os meus amigos o amor é uma questão dolorosa.
Procuramos entre os rostos que passam
a face da esfinge que apresentará o enigma.
Entre os meus amigos o amor é uma resposta a uma questão
que não chegou a ser colocada.
Por isso coloquemo-la.

Entre os meus amigos o amor é um pagamento.
É uma dívida antiga cujo valor foi gasto de uma forma idiota.
E continuamos a pedir emprestado uns aos outros.
Entre os meus amigos o amor é um salário
que qualquer um pode receber para ter uma vida honesta.



(Versão minha, recuperada, feita com a colaboração de C. e de C., e dedicada a J., a P.B. e a todos os leitores deste blogue; original reproduzido em City Lights Pocket Poets Anthology, organização de Lawrence Ferlinghetti, City Lights Books, São Francisco, 3ª edição, 1997, p. 44).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Semyon Kirsanov (1906-1972)

O novo coração



Ando ocupado!
Ando a construir
um modelo de um coração
inteiramente
novo!

Um coração
para o futuro: com o qual sinta
e ame. Um coração
com o qual compreenda os homens:

E que me diga também quem
devo livremente
cumprimentar com a minha mão -

e a quem
nunca deverei
estendê-la.



(Versão minha, recuperada, feita a partir da tradução inglesa de Anselm Hollo reproduzida em City Lights Pocket Poets Anthology, organização de Lawrence Ferlinghetti, City Lights Books, São Francisco, 3ª edição, 1997, p. 81).

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Feng Menglong (1574-1646)

O amor


Segundo a melodia Guazhier



Quando estás irritada comigo,
parece que te ris para mim.
Quando me chegas a roupa ao pelo,
aguento e aprecio o teu ar de coquete.
Quando armas confusão por minha causa,
oiço-te a chamares-me querido.
Gosto tanto da tua voz quando me gritas,
e tanto dos teus braços quando me agarras.
Pareces-me linda quando estás contente,
mas ficas ainda mais bela
quando te mostras furiosa ou ressentida.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Guojian Chen reproduzida em Lo mejor de la poesía amorosa china, Calambur, Madrid, 2007, p. 152).

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Eeva Kilpi

["Quando alguém já não tem forças..."]



Quando alguém já não tem forças para escrever, tem de recordar.
Quando já não tem forças para fotografar,
tem de ver com os olhos da alma.
Quando já não tem forças para ler,
tem de estar repleto de histórias.
Quando já não tem forças para falar,
tem de ecoar.

Quando alguém já não tem forças para andar, tem de voar.

E quando chega a hora,
tem de se desprender das recordações
e dos olhos da alma e deixar de ressoar,
calar-se e dobrar as asas.

Mas aconteça o que acontecer a história continua, continua.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 128).

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Jerzy Ficowski

["nada fiz para salvar..."]



nada fiz para salvar
uma só vida

nada fiz para impedir
uma bala que fosse

e ando por cemitérios
que não existem
procuro palavras
que não existem
corro

para ajudar em sítios onde ninguém chamou
para salvar depois das coisas acontecerem

mesmo que esteja atrasado
eu quero chegar a tempo



(Versão minha a paritr da tradução inglesa de Keith Bosley e Krystyna Wandycs reproduzida em The poetry of survival - post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, pp. 131-132).

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ghani Khan

Pergunta ou resposta



Responde, mullah, responde!
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
É uma consumação do amor ou uma obsessão doentia?
Repouso ou agitação?
A vida é um imã ou uma amante?
O púlpito ou a sala do trono?
Ou, num mundo voluntarioso,
a ilusão de um sonho encantado?
Um momento para arrebatar a luz
a partir da escuridão do universo?
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!
A vida é o Faraó e a ousadia -
ou a sua loucura e euforia?
É o trono de ouro de Nimrod,
ou a sinistra morte de Mansur?
Adorável, cheia de sorrisos,
ou Yazid, inchado de orgulho?
É a primavera, ou a rosa,
meio escondida do olhar?
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!
Um copo de vinho intoxicante,
ou a tigela partida de um mendigo?
O rosto aturdido de Khyyana,
ou o sagaz semblante do tolo Bahlol?
Uma rosa de jardim salpicada de cores,
ou a garantia de espinhos acutilantes?
É uma fuga ou um voo?
Um voo a partir de si próprio?
É uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!
A vida é beleza que se propaga -
ou beleza que se extingue?
Música que lamenta o seu próprio fracasso,
ou uma chama ardente?
Há ainda um lugar de repouso no caminho,
ou apenas respiração em busca de outra respiração?
A vida é os baldes de uma nora de tirar água,
uns vazios, outros cheios?
Ou luz que se expande eternamente,
inconsciente da sua glória?
A vida é uma pergunta ou uma resposta?
Responde, mullah, responde!



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Sher Zaman Taizi e de Revez Sheikh reproduzida em Modern poetry of Pakistan, organização de Iftikhar Arif; revisão das traduções de Waqas Khwaja, Dalkey Archive Press, Champaign e Londres, 2010, pp. 96-97)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cristina Peri Rossi

Projectos



Poderíamos ter um filho
e levá-lo ao jardim zoológico aos domingos.
Poderíamos esperá-lo
à saída do colégio.
Ele iria descobrindo
na procissão das nuvens
toda a pré-história.
Poderíamos com ele fazer anos.

Mas não gostaria que ao chegar à puberdade
um fascista de merda lhe desse um tiro.



(Versão minha; poema incluído em Poesía reunida, Lumen, Barcelona, 2ª edição, 2009, p. 221).

domingo, 11 de dezembro de 2011

Claes Andersson

[Roubai-nos e chamai-lhe...]



Roubai-nos e chamai-lhe economia nacional.
Tirai-nos as nossas casas e chamai-lhe planificação regional.
Humilhai-nos e chamai-lhe assistência social.
Tornai-nos loucos e chamai-lhe higiene mental.
Envenenai-nos e chamai-lhe conservação do meio ambiente.
Adormecei-nos e chamai-lhe ideologia de consumo.
Deixai-nos no desemprego e chamai-lhe reconversão.
Confundi-nos e chamai-lhe publicidade.
Vendei os nossos corpos e chamai-lhe liberdade sexual.
Enganai-nos e chamai-lhe política de rendimentos.
Coisificai-nos e chamai-lhe nível de vida.
Escarnecei do nosso trabalho e chamai-lhe jubilação antecipada.
Menti-nos e chamai-lhe liberdade de expressão.
Tiranizai-nos e chamai-lhe democracia.

(1974)


(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, organização de F. J. Uriz, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 180).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Karmelo C. Iribarren

O resto é conversa

Para os Legorburu Arzamendi



A minha mulher e a minha filha,
estas paredes e estes livros,
um punhado de amigos
que me querem bem
- e dos quais gosto de verdade -,
as ondas do cantábrico
em setembro,
três bares, quatro
contando com o clandestino da praia.
Ainda que saiba que deixo
algumas coisas, posso dizer
que, a ser algo, será esta a minha pátria.
O resto é conversa.



(Versão minha; poema reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilla, 2005, p. 185).

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ágnes Nemos Nagy

[Eu carreguei estátuas...]



Eu carreguei estátuas para dentro do navio,
as suas faces enormes e anónimas.
Eu carreguei estátuas para dentro do navio
que seguia para a ilha, para as colocar no seu lugar.
Entre a orelha e o nariz
havia um ângulo de noventa graus,
no resto as suas faces eram vazias.
Eu carreguei estátuas para dentro do navio e
assim fui ao fundo.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bruce Berlind reproduzida em The poetry of survival - post-war poets of central and eastern europe, organização de Daniel Weissbort, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 1993, p 209).

domingo, 4 de dezembro de 2011

Li Yanniam (? - 87 a. C.)

A minha canção


No norte há uma jovem muito bela,
uma beleza sem igual.
Um olhar seu é suficiente
para conquistar a cidade.
Um outro olhar basta
para dominar um reino.
Eu preferia tê-la
a subjugar uma capital
ou todo um império.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Guojian Chen reproduzida em Lo mejor de la poesía amorosa china, Calambur, Madrid, 2007, p. 36).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Esclarecimento & agradecimento aos leitores que escrevem comentários neste blogue

Caríssimos leitores,

Por motivos alheios à minha vontade, não tenho conseguido responder, nos últimos tempos, aos diversos comentários que têm deixado na caixa de comentários. Não sei porquê, mas o blogger não mo tem permitido. Espero que o problema se resolva em breve, desejando, também, que possam continuar a ler e a comentar os poemas que aqui vão sendo passados para português. Agradeço - a todos - as palavras de simpatia e incentivo que me têm dirigido.