sexta-feira, 23 de março de 2012

Antonio Parra

A una puttana



O teu ofício não é dos melhores,
nem sequer foste a primeira.
A tua profissão e a sua origem perdem-se
para lá do velho centauro e ainda mais para trás,
nos claros pomares de todas as relações
e nos confins de todo o paraíso averiguado.
Não fazes nada de formidável,
nada que assombre os humanos,
é tão vulgar o teu trabalho
que ninguém pensou desterrar-te.
No entanto, encheste de prazer e gozo
na noite pesada criaturas feias e magoadas.
Chulos, rufias, sonâmbulos, ladrões,
trolhas e corcundas povoaram a tua cama,
e tremeram diante do teu corpo
homens do mar e soldados.
Não foste a primeira nem a única,
nem serás a última,
velha rameira da noite
nesta esquina toda mijada de Roma,
mas o teu esforço bem merece a minha saudação:
Salvé, enrugada senhora dos desgraçados!
Rainha dos prazeres terrenos,
os únicos que nos é dado possuir.



(Versão minha; original reproduzido em Poemas (1979-1997), Renacimiento, Sevilha, 1997, p. 35).

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