Porque eu tinha saibro antigo, orvalho arcaico
Nas sobrancelhas, vinho na garganta do meu pássaro e porque
Um mais um são dois, como duas armas, duas mulheres,
Duas pedras brancas sobre a cabeça de cada homem avisado,
Porque não houve nenhuma ferida deste lado do rio,
Houve pontes, ervas medicinais e paz, e porque
Eu beijei a terra doce com os meus grossos lábios neolíticos,
Porque eu tirei do inferno a minha flauta e toquei-a
À minha maneira, assustando nuvens e corvos, porque
Semeei a minha sombra no sol, e porque
Tinha lume na minha lança, centeio no cabelo, fios de cinza
Em igrejas, em tempos, em sepulturas, porque eu tinha sangue
E a minha flauta de folhas falava, eles amaldiçoaram-me.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 200).
2 comentários:
Poder ler em língua portuguesa um poema assim (seguramente um dos mais belos com que já me deparei), é o que faz com que pensemos no quanto é louvável o trabalho dos bons tradutores.
Uma tradução que impele a não ser lida em silêncio... requer uma voz em maiúscula!
Fico grata por ter tido esse deleite de sentir tal musicalidade na língua.
O rio germina, a música brota.
Quanta beleza. Extasiante.
Enviar um comentário