terça-feira, 1 de maio de 2012

Pere Rovira

A greve



Não é preciso mais nada: uma avenida
de gente que sorri ao meio-dia
diz-nos quem tem razão.
Não os encontras nunca quando sais
a ventilar o vício de dormir sempre mal,
e o sol do aposentado é como uma aspirina.
Hoje estará apagada a luz de asma
de oficinas e fábricas; a agulha
das horas não coserá ao contrário
o tempo dessa rapariga de blusa colorida,
e daquele homem velho que a olha
com a terna surpresa de regressar ao desejo;
a blusa passa ondeando pelos seus olhos
como as bandeiras vermelhas da manhã
pela montra fura-greves de uma loja.

"Que só o coração marque a fronteira
da esquerda", alguém escreveu.
O coração de quem? O coração armado,
o coração blindado dos bancos,
o coração anémico dos políticos a soldo,
ou esses corações
que defendem agora a alegria?

De noite, nas varandas, brilham os cigarros
dos homens que odeiam a manhã.
A greve terminou, mas eles prolongam-na
com o fumo da insónia. Está calor,
amanhã estará ainda mais junto às máquinas
sagradas outra vez, como a lei
que o dinheiro ditou, como o âmbito
do tempo e do amor.
Não é véspera de nada esta hora ofendida,
chega o sopro da alvorada, forte, espesso
como uma baforada de hospital,
e retorna, biliosa, às janelas
a luz de um novo dia de trabalho.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Pere Ballart e Jordi Julià reproduzida em Lírica de fin del siglo - Poesía catalana y española (1980-2000), Diputación de Granada, Granada, 2005, pp. 187-188).

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