terça-feira, 28 de agosto de 2012

Edip Cansever

Mesa



Transbordando de felicidade por estar vivo
Um homem põe as suas chaves sobre a mesa,
Põe flores numa jarra de cobre sobre a mesa.
Coloca os seus ovos e o leite sobre a mesa.
Coloca sobre ela a luz que entra pela janela,
O som de uma bicicleta, o som de uma roda de fiar.
A brandura do pão e do tempo é ali colocada por ele.
Sobre a mesa o homem põe
Coisas que aconteceram na sua mente.
O que deseja fazer na sua vida.
Coloca lá tudo isso.
Aqueles que amou e os que não amou,
O homem coloca-os também sobre a mesa.
Três vezes três são nove:
O homem coloca nove sobre a mesa.
Ele esteve junto à janela, próximo do céu;
Estendeu e colocou coisas sem parar na mesa.
Foram tantos os dias em que quis beber uma cerveja!
Ele coloca sobre a mesa o líquido derramado dessa cerveja.
Coloca nela o seu sono e a sua insónia;
A sua fome e a sua saciedade são nela colocadas por ele.

É a isto que eu chamo uma mesa!
Algo que nunca se queixa minimamente da sua carga.
Cambaleou uma ou duas vezes, depois manteve-se firme.
O homem continuou a acumular coisas sobre ela.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Richard Tillinghast reproduzida em The flag of childhood - poems from the middle east; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque; 2002; p. 31).

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