sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Lisel Mueller

Triagem



Bertolt Brecht lamentava ter vivido numa época em que era quase um crime falar de árvores, porque isso significava ficar calado em relação a tanto mal existente. Caminhando numa zona cheia de olmos enormes, ainda saudáveis, junto ao lago de Chicago, penso no que Brecht disse. Eu quero celebrar estes olmos poupados às pragas, estes sobreviventes de uma tribo outrora florescente e comemorada por todas as Elm Streets* da América. Mas celebrá-los significa ficar em silêncio em relação às pessoas que se sentaram e dormiram debaixo deles, aos pobres sem-abrigo que foram arrastados para fora da cidade como lixo, com a diferença de que não havia sítio para os despejar. Pois falar de uma coisa implica omitir outra. Quando falo de mim própria não posso falar de ti. E tu apercebes-te disso enquanto me escutas, a desilusão estampada no rosto.
 
 
 
(*Rua(s) dos Olmos. Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 127).

3 comentários:

Sebastião Ribeiro disse...

Obrigado por oferecer-nos este texto; casou muito bem com minhas presentes ânsias. Abraços, bom trabalho sempre!

Lp disse...

Eu é que agradeço as suas palavras.

Lp disse...
Este comentário foi removido pelo autor.