quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Lisel Mueller

Famílias felizes e famílias infelizes I



Se todas as famílias felizes são iguais,
também o são todas as famílias infelizes,
cujas vidas celebramos
porque estão cheias de movimento e ardor,
porque elas são aquilo que pensamos que a vida é.
Alguém mente e alguém está a ser
vítima de mentira. Alguém é agredido
e alguém é o sujeito da agressão.
Alguém reza, ou chora
porque não sabe como rezar.
Alguém bebe durante a noite;
alguém se encolhe nos cantos;
alguém ameaça e alguém suplica.
Palavras azedas à mesa,
soluços amargos no quarto;
represálias surdas no espelho da casa de banho.
A casa estala com segredos;
todos preparam o seu plano de fuga.
Alguém se desmorona sem produzir um som.
Às vezes, alguém sai de casa
numa maca, num silêncio terrível.
Quanta energia gasta em sofrimento!
É como um fogo que arde sem parar
mas não consegue arder até ao ponto da sua extinção.
As famílias infelizes nunca são indolentes;
estão sempre em acção,
ao contrário das outras, as felizes,
aquelas em que nunca se levanta a voz
ou se cospe sangue, aquelas que nunca
fizeram nada para merecer a felicidade que têm.



(Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems; Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 34).

4 comentários:

Johanna Bettencourt disse...

Fiquei hipnotizada com suas palavras.
Lindo, triste e verdadeiro.
Parabéns pelo lindo blog.
Abraços,
Johanna.

Lp disse...

Obrigado pelo seu comentário.

{anita} disse...

fortíssimo, este poema. Gosto tanto...

J-dînîs: disse...

(...) Gostei muito de ler este poema.