quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Thomas Lux

Cadáveres haitianos



Harvard, Yale, não têm problemas em arranjar corpos,
tal como outras prestigiadas faculdades de medicina, mas escolas
menos afortunadas por vezes têm uma evidente falta de cadáveres

para desenvolverem o seu trabalho vital e sombrio: não se pode
usar um mais do que uma vez. Quanto aos cadáveres haitianos,
são os melhores naquilo que os cadáveres fazem melhor:

ficam sossegados na mesa anatómica para que os futuros
cirurgiões os possam dissecar. Uma vez resolvidos
os problemas de importação (os práticos: câmaras frigoríficas

de navios de pesca fora de serviço; os legais: poucos
antecedentes), o negócio é bom,
é mesmo visionário: 50.000 dólares americanos por peça,

o abastecimento é garantido, nunca escasseia, e a mais valia
que torna tudo tão suave - um verdadeiro
e inultrapassável sonho - é o estado em que se encontram

os corpos: tão magros, todos tão magros
que os órgãos estão mesmo rente à pele, esses órgãos
feitos para a lâmina com assombrosa tranquilidade.



(Versão minha; original reproduzido em New and selected poems (1975-1995), Mariner Books, Boston / Nova Iorque, 1997, p. 111).

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