domingo, 29 de abril de 2012

Dritëro Agolli

Sobre o apelo da poesia



Dizes que escrevi de mais sobre vacas,
E que estraguei demasiados versos com os cereais dos campos.
E então? Tu tens manteiga e leite pela manhã,
Ao jantar há sempre esse pãozinho branco
No teu prato e, além disso, o teu clamor por carne.

Sustentas que perdemos alguma emoção poética
Quando, nos nossos versos, falamos de vacas a toda a hora,
A intensidade de um poema, dizes, não vem das pastagens,
Nasce antes sob a nossa pele - quando uma linha explode
Em palavras, insistes, vindas de alguma reserva sublime.

Escuta, no entanto: no que diz respeito a vacas, eu nunca alcancei
Tudo o que queria, sim, elas merecem muito mais,
Por isso não posso separá-las da minha caneta e das minhas folhas,
As vacas são a minha inspiração, a minha primavera, o meu outono,
E, se pudesse, ensiná-las-ia a escrever poemas.

Tenho a certeza de que fariam melhor do que a maioria dos nossos bardos!



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 181).

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Xhevahir Spahiu

Linguagem



Eles disseram à linguagem: agora tens liberdade.
Mas a linguagem não teve forças para responder: não preciso.
De que me serve agora
Se não falei livremente quando devia?
Fui deixada sem asas,
Fui deixada sem céu,
Sou vida sem sonho,
Sou um sonho sem uma vida.
Disseram à linguagem: és livre.
É difícil, disse a linguagem, difícil
Acreditar que se é livre.
Quando engolimos as nosssas próprias sílabas,
Quando nos golpeiam até nos reduzirem a um cepo
Até a liberdade se transforma numa prisão.
Eles disseram à linguagem: a liberdade vive.
A linguagem replicou:
Eu não sou Constantino - que se lançou em busca da morte.
Disseram à linguagem: és a liberdade.
Não é preciso muito para perceber isso.
Então a linguagem acreditou neles
E abriu a boca,
Emitindo
Em vez de sons
Sangue.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An Anthology of albanian poetry, Nortwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, pp. 213-214).

terça-feira, 24 de abril de 2012

Dritëro Agolli

A vaca



A vaca rumina o seu alimento no estábulo cheio de forragem,
Eu encosto a cara ao seu flanco enorme
E sinto, vindo do interior das suas profundezas, o calor,
O calor do feno colhido nos campos.
Sobre os seus cornos escuros está suspensa uma lâmpada eléctrica
Que traz luz até ao balde do leite.
Não posso abandonar a vaca.
Com a cara encostada ao seu flanco, cheiro o leite coberto de espuma.
A leiteira retira o balde com cuidado
E pára por um instante, com as mãos a pingar.
Diz:
     "Você é veterinário?"
Descolo a cara da vaca:
     "Não, poeta."
Ela ri-se e estuda-me com os olhos azuis,
Simpática, sábia, serena.
Reflecte um pouco e compreende
Que eu não consigo escrever uma linha sem uma vaca...



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestwern University Press, Evanston - Illinois, 208, p. 180).

domingo, 22 de abril de 2012

Entre a carne e o osso



























Luís Filipe Parrado, Entre a carne e o osso, Língua Morta, Lisboa.

[com capa de Inês Dias,
150 exemplares, 68pp., 9€]
pedidos: edlinguamorta@gmail.com

terça-feira, 17 de abril de 2012

Cristina Morano

Fabricante de armas

                                             (Transcrição de uma conversa real gravada com
                                              câmara oculta para uma reportagem da BBC)



E esta outra arma que aqui tenho,
dada a sua forma alongada e de fácil
manejo, pode ser utilizada
como um eficaz objecto contundente
para dispersar multidões.
Além do mais numa das pontas
incorpora uma bateria
que, accionada por este botão,
produz uma descarga feroz
de cada vez que se golpeia;
ou, se o desejar, o artefacto
pode introduzir-se na vagina
e, a partir daí, electrocutar,
sem as velhas complicações
dos instrumentos clássicos
similares no mercado.
                                   Não tenham
receio de perguntar o preço.



(Versão minha; o original aparece reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 219).

domingo, 15 de abril de 2012

Raúl Gustavo Aguirre

A trincheira do Reno



Eu, Martin
Heidegger, o filósofo
que pensou o Impensável
e anunciou a perda do Ser
por causa da ciência e do olvido,
fui declarado pelos meus pares
"pessoa totalmente dispensável"
e enviado para cavar esta trincheira
ao longo do Reno.

Debaixo dos meus pés a terra venerável afunda-se.
Cai o crepúsculo azul de Georg Trakl. Tenho frio.
E no bosque vizinho soa outra vez, tenebroso,
o riso do idiota que assistia às minhas lições.



(Versão minha; o original pode ler-se aqui).

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ali Podrimja

Se



Se um povo
Não tem poetas
Nem poesia própria
Para uma Antologia Nacional
Então a traição e o ladrar
Hão-de servir.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 208).

terça-feira, 10 de abril de 2012

Girolamo de Rada (1814 -1903)

Pode um beijo ser mais doce?



Era uma manhã de domingo
E o filho da nobre senhora
Foi visitar a bela donzela
Para lhe pedir uma gota de água,
Pois morria de sede.
Encontrou-a sozinha à lareira
A entrançar o cabelo.
Amavam-se, mas nenhuma palavra de amor foi trocada,
A jovem tinha um sorriso nos lábios:
"Por que tens de te ir como o vento?"
"Aguardam-me para o lançamento do disco."
"Espera só um pouco, guardei
Duas maçãs maduras para ti."
Segurando o cabelo penteado
Com uma das mãos erguida
Sobre a pele pálida das orelhas,
Ela mergulhou a outra no seu corpete
E tirou as maçãs,
Colocando-as nas mãos dele,
Ruborizando de vergonha.
Dizei-me, ó apaixonados,
Pode um beijo ser mais doce?



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 71).

sábado, 7 de abril de 2012

Fabián Casas

Sem chaves e às escuras



Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais.

Então saí para o patamar para deitar o lixo fora
e, atrás de mim, com uma corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes dos meus vizinhos
através das suas portas.
É passageiro, disse para mim;
no entanto também a morte poderia ser assim:
um patamar escuro,
uma porta fechada com a chave do lado de dentro,
o lixo na mão.



(Versão minha, o original pode ser lido algures por aqui).