sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Fernando Luís Chivite

Epitáfio sarcástico para si mesmo



Na verdade, ainda estava vivo
quando me enterraram.

Sempre consegui enganá-los
com certa facilidade.

No entanto nunca
me serviu de nada.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros; selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesús Munárriz, Hiperión, Madrid, 2012, p. 100).

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

III. O homem que matou Leopoldo María Panero
(The man who shot Leopoldo María Panero)



        O meu querido amigo Javier Barquín pensará sempre que foi ele que matou Leopoldo María Panero. Porém isso não corresponde à verdade. Ninguém tinha então valor para o fazer. O sujeito aterrorizava toda a cidade. Raptara várias mulheres e amaeaçava torturá-las. De tal maneira que me decidi nessa tarde, fui à loja de armas do Jim e comprei um revólver de calibre 45. No momento em que Leopoldo María Panero estava a tentar extorquir mais uma vez Javier Barquín, disparei à distância. Como Javier também tinha sacado uma pequena pistola, supôs ter sido ele que fizera justiça. Toda a vida acreditará que foi ele quem matou Leopoldo María Panero. Mas não foi esse o caso. Eu sou o homem que matou Leopoldo María Panero.



(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1979-2000); edição Túa Blesa, Visor, 4ª ed., Madrid, 2010, p. 269).

sábado, 24 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

II. O homem que acreditava ser Leopoldo María Panero



      Chovia e voltava a chover sobre a casa de De Kooning, célebre pelas suas aparições. Aí, o filho mais novo de De Kooning levantou-se, nervoso, da cama, vestiu um roupão e foi até ao quarto do pai para lhe dizer que era Leopoldo María Panero. Enquanto se demorava a enfatizar o seu desgosto relativamente a O Desencanto, o filme de Chávarri, não houve outro remédio senão o de se chamar um psiquiatra. Já no manicómio, persistia no seu delírio, imaginava cenas da infância, ruas em Astorga, badaladas, cacetadas do meu pai. Depois de um rápido electrochoque, passou a acreditar que era Eduardo Haro, uma ligeira variação da primeira figura. De seguida, pôs-se a coxear e a tossir e afirmou ser Vicente Aleixandre. Entretanto, em casa de De Kooning, entre barulhos de correntes, continuaram a multiplicar-se as aparições.
 


(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1970-2000), edição de Túa Blesa, Visor, 4ª edição, Madrid, p. 268).

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

I. A chegada do impostor que se fingia Leopoldo María Panero



       Ao amanhecer, quando as mulheres comiam morangos frescos, alguém bateu à minha porta dizendo ser e chamar-se Leopoldo María Panero. No entanto, a sua falta de firmeza na representação do papel, os seus abundantes silêncios, os seus enganos ao recordar frases célebres, o seu embaraço quando o obriguei a recitar Pound e, finalmente, o pouco encanto dos seus encantos, convenceram-me de que se tratava de um impostor. Imediatamente fiz vir os soldados: ao amanhecer do dia seguinte, quando os homens comiam peixe congelado, na presença de todo o regimento, foram-lhe arrancados os galões, os fechos de correr, e arrojado ao lixo o seu baton, para ser fuzilado pouco depois. Assim teve o seu fim o homem que se fingia Leopoldo María Panero.
 
 
 
(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1970-2000); edição de Túa Blesa, Visor, Madrid, 4ª ed., p.267).

domingo, 18 de novembro de 2012

Cheryl Savageau

Por que é que eles fazem isso



O tio Jack bebe porque é índio.
A tia Rita
porque casou com um alemão.
O tio Raymond
porque as pequenas discussões passaram de moda.
O tio  Bébé
porque a Jeannie o encoraja a fazê-lo.
A tia Jeannie porque o tio Bébé o faz.
O Russel porque anda na faculdade.
O tio Jack
porque é um perfeccionista.
O Dave porque está desempregado.
A tia Rita
porque é música.
O Bert porque é casado com a tia Rita.
O Renny
porque gosta de se divertir.
O Gil porque sempre bebeu.
O Raymond
porque a Marie é demasiado esperta.
O Jack porque a Florence não o fará.
A Lucille e o Bob não bebem
porque todos os outros o fazem.
O Raymond por causa de todas as mulheres
que nunca terá.
E o Dick só porque quer esvaziar a pipa.



(Versão minha; original reproduzido em Poetry like bread; selecção de Martín Espada, Curbstone Press, 5ª ed. (ampliada), Willimantic, 2000, p. 229).

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Kurt Marti

Contra a corrente



não existiu
                        já um
que andava sobre as águas?
mais ninguém
conseguiu fazer o mesmo

mas
                       que tu
uma não-nadadora
nades contra a corrente
não é um milagre menos significativo



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea, Los Libros de la Frontera, Barcelona, 1998, p.101).

sábado, 10 de novembro de 2012

Mohammed El Abdallah

Esta



Esta cabeça sem dúvida vai matar-me.
Não pára de pensar.
Expliquei-lhe mil vezes a inutilidade dos pensamentos,
demonstrei-lhe as razões para desesperar,
mas ela não pára de pensar.
Digo-lhe: está bem,
pensaremos até que o pensamento se esgote.
Então ela adormece por fim apesar de si mesma,
e acorda manhã cedo,
acende um cigarro, toma o café antes de mim
e recorda as histórias de ontem e os pensamentos de ontem.
Lavo-a, e continua a pensar.
Penteio-a, e continua a pensar.
Envio-a ao barbeiro, e continua a pensar.
Mas quando quero pensar num problema que me extenua
ou em alguma coisa que me interessa,
ela geme de dor como se lhe estivesse a bater com um machado.
Esta cabeça vai matar-me.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Joumana Haddad reproduzida em Allí donde el río de incendia - Antología libanesa moderna, Norteysur, Málaga, 2005, pp. 39-40).

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Joanna Pollakówna

Canícula



Porquê esta tão longa prova de dor?
Primeiro assaltou-me a dúvida,
depois recuperei a confiança,
revoltei-me
e remeti-me ao silêncio da humildade.
Continuas a testar-me.
E a prova final parece sempre tão distante,
as complicações de sentido indecifráveis.

Na fogueira azul da canícula eterna
o teu amor nunca se inclina para a frieza;
não há refúgio nem meio de fugir.
Não há resposta
porque não há pergunta.



(Versão minha a partir da tradução francesa de Georges Lisowki reproduzida em Vingt-quatre poètes polonais, Éditions du Murmure, Neuilly-lès-Dijon, 2003, p. 125).

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Din Mehmeti

Tenho um pedido a fazer



Eu tenho um pedido a fazer
Que vai transformar uma pedra numa maçã,
Uma maçã num pássaro,
Quando a estrela souber o seu nome
Desvanecer-se-á num sopro de fumo.

Um pedido que envolve lágrimas
E vai transformar o pássaro numa bala,
A bala numa flor,
Túmulo após túmulo
Até que brote toda uma encosta.

É o suspiro da alma
Que arde na música
E nasce na sua própria morte.

Vamos empilhar os ossos, diz ela,
E erguer uma torre de amor
Pois o futuro solicitará de nós
Um farol para enfrentar a tempestade.



(Versão minha a partir dda tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry; Northwestern University Press, Evanston - Illinois, 2008, p. 184).

sábado, 3 de novembro de 2012

Rainer Brambach

Vida quotidiana



Ir aonde tenha de ir
Plantar uma  árvore nova
Regar o jardim ainda que chova sem cessar
Engraxar os pneus
e testar os travões
Ler o jornal sem o desejo
de emigrar
Receber os amigos
Poder esquecer
Rosas ou galinhas?
Escrever poemas
e não fazer caso da música dos contrabaixos
do céu
que está azul ou encoberto.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporànea, Libros de la frontera, Barcelona, s/d., p 53.)