segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Dieter Fringeli

Hoje



nada
nada mais
ainda nada mais
só tu
só eu
e nada no meio



(Versão minha a partir da tradução de Hans Leopold Davi reproduzida na Antología de la poesía suiza contemporánea, Los libros de la frontera, Barcelona, s/d., p. 245).

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Abu - L - Qasim al - Shabbi

A estranha narrativa



Nós: rimo-nos do passado.
Amanhã o futuro rir-se-á
de nós.
Assim é o mundo, uma história urdida
por algum grande feiticeiro.
Os vivos desempenham o seu maravilhoso papel
como se já estivessem mortos.
O palco é triste
com a sua cortina de nevoeiro.
E por detrás do pano
os espectadores do futuro observam-nos, rindo.
Não se dão conta de que o argumento
vai tombando sobre as suas próprias mãos.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Lena Jayyuri e Naomi Shihab Nye reproduzida em The flag of childhood - peoms from the middle east; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, 2002, p. 32).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Merry Little Christmas

 

Alexandre Sarrazola - Emanuel Jorge Botelho - Inês Dias - Luís Filipe Parrado - Manuel de Freitas - Miguel Martins - Renata correia Botelho - Vítor Nogueira - fotografia da sobrecapa de Bert Hardy - composição e paginação de Inês Mateus - Averno - Lisboa - 2012 - 23 páginas

sábado, 22 de dezembro de 2012

Silja Walter

O meu pequeno cão branco e eu



O meu pequeno cão branco e eu -
entrámos e saímos em todas as portas.
Procuramos-te a ti. Procuramo-nos a mim.
Choramos e passamos frio.

A chuva dá grandes voltas no largo.
Faz círculos em crescendo.
Não sei aonde vou nem onde estou
com o meu pequeno cão.

O mundo é grande. E tu és grande.
Onde terminam o caminho e a viagem?
Escuto o aguaceiro,
o meu pequeno cão ladra docemente.

Não te encontro. Não me encontro.
Contigo me perdi.
O meu cão olha entristecido
e aperto a minha cara contra as suas orelhas.



(Versão minha a partir da tradução de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção e introdução do tradutor, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., p. p.71).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Nós, os desconhecidos




A.M. Pires Cabral - A. Maria de Jesus - Alexandre Sarrazola - David Teles Pereira - Diogo Vaz Pinto - Emanuel Jorge Botelho - Inês Dias - João Almeida - José Carlos Soares - Luís Filipe Parrado - Luis Manuel Gaspar - Manuel de Freitas - Marta Chaves - Miguel Martins - Renata Correia Botelho - Ricardo Álvaro - Rosa Maria Martelo - Rui Caeiro - Rui Miguel Ribeiro - Rui Pires Cabral - Vítor Nogueira - organização de Daniela Gomes e Rui Pires Cabral - capa de Luís Manuel Gaspar - composição e paginação de Inês Mateus - Averno - Lisboa - 2012 - 97 páginas.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Óscar Cruz

Síndrome de Kafka




cinco meses depois da morte
do meu pai ainda encontramos
quem chore por ele. o meu pai,
porém, teria preferido ser
esquecido. creio que foi por isso
que o esquecemos.



(Versão minha; original reproduzido em Dejar atrás el agua. Nueve nuevos poetas cubanos; edição e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 78).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Marina Aoiz Monreal

Nós


Os nós
albergam segredos perigosos.
No seu interior
escondem-se punhais invisíveis
dardos envenenados
que trespassam a luz
em lentíssimas sequências
quando alguém escreve a palavra mão
ou a palavra vida. Os nós
não oferecem consolo. Não possuem
o brilho de um anel de casamento
nem a brancura
do primeiro dente debaixo da almofada.
Os nós
dobram as suas asas de morcego
sobre si mesmos
e escondem-se nos lentos resquícios
da geada nocturna.
Para os enfrentar
há que beber
os raios do sol da meia noite,
beijo a beijo,
e despojar-se de tudo o que se aprendeu.
Só às apalpadelas
se pode rasgar um nó
nos tenebrosos aposentos.
Só a sós,
entre o frio e o nada.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros; selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesus Munárriz; Hiperión, Madrid, 2012, pp. 50-51).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Joseba Sarrionandia

Quarenta nomes para fazer um soneto



William Faulkner. Alice Liddell. Buster Keaton.
James Joyce. Marilyn Monroe. Stephen Crane.
Ambroise Bierce. Marcel Duchamp. Júlio Verne.
Franz Kafka. Herman Melville. André Breton.

Humphrey Bogart. Paul Klee. François Villon.
Jacques Brel. Ezra Pound. Louis Ferdinand Céline.
Nicholas Ray. Dante Alighieri. John Wayne.
Samuel Beckett. Jonathan Swift. John Huston.

Nazim Hikmet. Juliette Greco. Boris Vian.
Edgar Allan Poe. Vladímir Nabokov.
Hieronimus Bosch. Bram Stocker. Paul Celan.

Johan Huizinga. Jean Genet. Marcel Schwob.
Edgar Spencer Dogson. Vladímir Holan.
Edward Lear. Joseph Conrad. Vincent Van Gogh.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana reproduzida em El otro medio siglo - Antología incompleta de poesía iberoamericana; organização de Antonio Domínguez Rey e outros, Espiral Maior, A Coruña, 2009, p.p. 539-540. Nota: na versão que aqui utilizo (e única que conheço) como fonte da transposição para português dos nomes citados pelo poeta alguns destes surgem grafados erradamente - por exemplo, "Marcel Sohwob" ou "Vincent Vang Gogh". Presumo que se trate de um conjunto de gralhas, alheias à vontade do autor; optei, assim, por corrigir esses "erros". De resto, o próprio nome do poeta aparece escrito, nesta obra, de forma ligeiramente diferente daquela que já conhecia: "Sarrionaindia" em vez de "Sarrionandia"; mantenho esta última).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Kwang-kiu Kim

O nascimento de uma pedra



Nessas fundas ravinas das montanhas
- pergunto-me -
existirão pedras
que nunca ninguém visitou?
Subi à montanha
em busca de uma pedra que ninguém tivesse visto
desde os tempos mais remotos.

Debaixo dos antigos pinheiros
em encostas íngremes e intransitáveis
havia uma pedra
há quanto tempo
- pergunto-me -
há quanto tempo
esta pedra coberta de musgo
está aqui?

Dois mil anos? Dois milhões? Dois biliões?
Não
De modo nenhum
Se até agora nunca ninguém viu realmente
esta pedra
ela apenas existe
aqui
a partir deste momento
Esta pedra
nasceu só
no momento em que a vi pela primeira vez



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em This Same Sky - a collection of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p.111).

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Fernando Luis Chivite

Apontamentos para um manifesto futuro, 9



Sabemos demasiadas coisas.

Sabemos tantas coisas que estamos presos
pelas coisas que sabemos.

Há armas que angustiam
quem as possui. A razão tem cárceres.

Sai daí, sê diurno. Não interrompas
a luz. Apaga a tua marca.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros. Selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesús Munárriz; Hiperión, Madrid, 2012, p. 98).