sábado, 14 de setembro de 2013

Stanley Kunitz

Três pequenas parábolas para os meus amigos poetas



1
Certas espécies de sáurios, especialmente os lagartos, são capazes de largar as suas caudas como forma de auto-defesa quando se sentem ameaçadas. O apêndice separado, assumindo uma vida própria e remexendo-se furiosamente, desvia a atenção para si. Tão depressa como o gato-bravo lança as garras sobre a cauda que se agita, prendendo-a na areia para a abocanhar e esmagar, assim o lagarto livre escapa apressadamente. E uma nova cauda começa a crescer no lugar daquela que foi sacrificada.
 
 
2
A larva do escaravelho-tartaruga tem o excelente hábito de recolher os seus excrementos e restos de pele dentro de uma bolsa que carrega às costas quando avança em campo aberto. Se não fosse esse escudo fecal apareceria nu diante dos seus inimigos.
 
 
3
Entre os Beduínos, os poetas-pedintes do deserto são vistos com desprezo por causa da ganância, da habilidade para roubar e da sua venalidade. Nos diversos acampamentos toda a gente sabe que os poemas de louvor podem ser comprados, mesmo pelos piores canalhas, com comida ou dinheiro. Além disso, estes bardos vagabundos são conhecidos por roubarem ideias, versos e mesmo canções completas a outros. Muitas vezes a sua recitação é interrompida pelos gritos dos homens agachados em volta das fogueiras: "Farsantes. Roubastes isso deste e daquele!" Quando o poeta tenta defender-se, recorrendo a testemunhas que comprovem a sua honradez ou, em casos extremos, apelando a Alá, os seus ouvintes apupam-no, gritando, "Kassad, kaddad! Um poeta é um mentiroso."
 
 
 
(Versão minha; original reproduzido em The collected poems, W.W. Norton & Company, Nova Iorque/Londres, 2002, pp. 234-235).

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