domingo, 13 de outubro de 2013

Stanley Kunitz

Reflexos, reflexões



Há uns anos cheguei à compreensão de que a força mais pungente de todas as tensões líricas resiste à consciência de que enquanto vivemos já estamos a morrer. Aceitarmos este tipo de conhecimento e, apesar dele, sermos capazes de nos mantermos íntegros e dotados de compaixão - esta é a razão última do trabalho em arte.
 
 
No âmago da existência de cada um de nós existe um fundo de energia que nada tem a ver com a identidade pessoal, mas que deriva do ser e funde-se com a natureza e o universo. O homem desempenha apenas um pequeno papel em todo o maravilhoso espectáculo da criação.
 
 
Os poemas seriam fáceis se as nossas mentes não estivessem tão atafulhadas com o ruído dos dias. A tarefa é conseguir chegar à outra margem, onde podemos escutar os ritmos profundos que nos ligam às estrelas e às correntes.
 
 
Eu insisto nas minhas tentativas de dominar a linguagem, de modo a não ter de mentir. E continuo a ler os mestres, porque eles contaminam-me com as possibilidades do humano.
 
 
Os poemas que escrevemos nunca nos satisfazem, uma vez que, mesmo nos casos mais felizes, não passam de um eco enfraquecido de uma canção que talvez tenha sido ouvida uma ou duas vezes no tempo de uma vida e que continuamente tentamos relembrar.
 
 
Eu gosto de pensar que é o amor do poeta pelo particular, pelas coisas deste mundo, que o conduz ao universal.
 
 
Uma coisa mal feita desmorona-se. Uma obra de arte defeituosa não demora mais do que uns anos a perder a maior parte da sua energia. Para o dizer de maneira simples, a conservação da energia é a função da forma.
 
 
Fomos todos expulsos do Jardim, mas os que mais sofrem no exílio são aqueles a quem ainda é permitido sonhar com a perfeição.
 
 
Por vezes sinto-me envergonhado por ter escrito tão poucos poemas sobre temas políticos, sobre as causas que me interessam. Mas então lembro a mim próprio que decidir viver como poeta no contexto do moderno super-estado é em si mesma uma acção política.
 
 
Há sempre uma canção que subjaz sob a superfície dos meus poemas. A luta entre o encantamento e o sentido. O encantamento quer dominar. Ele não precisa realmente de uma língua: tudo o que precisa é de sons. O sentido tem de lutar para se afirmar a si mesmo, para se engastar no ritmo e tornar-se inseparável dele.
 
 
Aos oitenta e sete anos Miró disse a um entrevistador que se sentia mais próximo dos "jovens - de todas as novas gerações". Da infância à maturidade, meditou ele, "sempre vivi uma vida muito intensa, quase como um monge, uma vida austera. Foram-se soltando as pequenas folhas, flutuaram, dispersaram-se a si mesmas. Mas o tronco da árvore e os ramos mantiveram-se sólidos."
 
 
Sim, admitiu ele, o seu estilo mudou - mudou várias vezes, de facto, ao longo da sua vida. Mas estas mudanças não implicaram uma rejeição do que fizera antes.
 
 
Na minha idade, depois de ultrapassares - ou de deploravelmente julgares que ultrapassaste - as ansiedades e complicações impertinentes da juventude, com que te deves confrontar se não com as questões simples e essenciais? Eu nunca me canso do canto dos pássaros e do céu e das estações. Quero escrever poemas que sejam verdadeiros, luminosos, profundos, sóbrios. Sonho com uma arte tão transparente que possas olhar através dela e ver o mundo.



(Versão minha; original reproduzido em The collected poems; W.W. Norton & Company, Nova Iorque/Londres, 2002, pp. 13-14).