sábado, 27 de abril de 2013

Helen Farish em Paredes de Coura 2011



(Agradeço a Albano Ribeiro por me ter feito chegar este registo de uma leitura pública que incluiu um poema traduzido neste blogue).

sábado, 20 de abril de 2013

Mihály Ladányi (1934 - 1986)

Eu podia ter vivido alegremente



Eu podia ter vivdo alegremente
porque para isso tinha aptidão,
tinha a noite serena
e passava horas inteiras sem chorar.
Agora as noites lançam-me um nó corredio
e as minhas artérias apertam-me a garganta.

Se sou amargo, quem me faz amargo?
Vivo a minha vida,
tenho sempre pão e amante
e o vinho nunca escasseia no meu copo.

Já não estou só e abandonado, como os que gesticulam e suam,
os das palmas das mãos feitas de lata,
os que dormem em colchões húmidos.
Quando sigo pelas estradas
e numa taberna -onde se juntam camponeses-
me abeiro do balcão,
não há leis que digam
que para sempre ali devo ficar
ou chegando a manhã
de novo devo tomar a direcção da estrada.

Podia ter vivido alegremente
mas os pássaros aninham as suas crias
nas palmas da minhas mãos
e alguém atou aos meus pés
os caminhos.
Podia ter vivido alegremente
mas agora as casas constroem-se em mim
e retumbam em mim na sua destruição.
Sou de alguma coisa o instrumento,
sinto sempre sobre mim o grande olho ardente
e vou por aqui e por ali, à deriva, embora
pudesse ter vivido alegremente.



(Versão minha a partir da versão castelhana de Yolanda Ulloa reproduzida em Cincuenta poemas de quince poetas húngaros del siglo XX; selecção de András Simor, Izana Editores, Madrid, 2012, pp. 141-142).

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Miklós Radnóti (1909 -1944)

Como o touro



Até hoje vivi a minha vida como um jovem touro
que se aborrece entre vacas prenhes no calor do meio-dia
e corre em círculos para exibir a sua força;
e desdobra o estandarte espumoso do seu jogo
a partir da baba; e sacode a cabeça - denso, o ar corta-se
entre os cornos - enquanto os seus coices espalham
erva martirizada e terra no prado espantado.

Assim vivo como o touro, mas como um touro que de súbito
pára no meio de um campo constelado de grilos
e fareja o ar. E sente que na espessura do monte
estacou uma corça, alerta, e que de repente corre com o vento
que no seu silvo arrasta o cheiro da matilha.
O touro fareja o ar mas não foge como a corça
e pensa que, chegada a hora, lutará e cairá
e na paisagem a matilha dispersará os seus ossos.
Entretanto, triste, brama lentamente no ar denso.

Assim também eu luto, assim cairei e, para exemplo
de eras distantes, a paisagem conservará os meus ossos.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Fayad Jamís reproduzida em Cincuenta poemas de quince poetas húngaros del siglo XX, selecção de András Simor, Izana Editores, Madrid, 2012, pp. 74-75).